Era hoje, o dia que chega para quase todos, amado por muitos e odiado por poucos, o aniversário!
Para Barn, esse costumava ser o dia mais especial do ano, até morrer em um deles e ficar de luto por si mesmo todo ano a partir daí, e para maior infelicidade sua, ainda estava atingindo a maioridade, ou pelo menos deveria...
-- Por que n?o posso descansar em paz como todo mundo...? - Se lamentou, ainda de olhos fechados.
Espojado na cama, nem se deu o trabalho de retirar seu pijama de gatinhos.
Seu sentimento fajuto de melancolia desapareceu quando escutou passos no corredor, eles vinham na mesma dire??o da porta do seu quarto, eram três pessoas diferentes e sabia exatamente quem eram.
Bam! Bam! Bam!
O som estrondoso das batidas violentas na porta de madeira rompeu o silêncio que antes estava em seu quarto, ele até tentou tampar os ouvidos e ignorar o barulho, mas a pessoa do outro lado também come?ou a chutar e puxar a ma?aneta com for?a, parecendo querer derrubá-la.
-- Você quer derrubar a porta é?
-- Vai ficar aí até quando!? - N?o esperou respostas antes de voltar a esmurrar a porta.
Tentou usar o travesseiro de abafador, mas as pancadas contínuas estavam o tirando do sério.
-- N?o posso nem mais ficar de luto em paz... -Resmungou baixinho, se sentando na cama – Fala logo o que ‘cês querem.
O silêncio se instalou atrás das portas, e apenas os baixos cochichos podiam ser ouvidos, fazendo Barn se questionar sobre o que elas estariam falando.
-- Trouxemos um presente... é... é de comer... - Uma voz tímida e baixou falou.
-- A gente vai acabar se encrencando, faz o favor de abrir logo – Uma voz entediada disse desta vez.
As palavras das outras duas foram o suficiente para lhe fazer pular da cama e correr para destrancar a porta, se deparando três garotas mais baixas que ele, de cabelos ruivos, olhos dourados e um triangulo na ponta da cauda.
A do meio, que estava mais a frente, era Tiline, que tinha a parte de cima do cabelo preso em duas marias-chiquinhas, enquanto a de baixo estava solta. Usava um cropped de manga longa com estampa camuflada, luvas sem dedo, short curto cor de vinho com um cinto preto e botas de cano longo de mesma cor.
-- Demorou demais, acha n?o? - Mantinha um semblante irritado e bra?os cruzados.
A da esquerda, Diline, mexia timidamente na ponta de um de suas tran?as, sua franja escondia para onde estava olhando. Trajava um vestido de manga curta, onde o torso era branco, e a saia que descia quase até os pés era vinho, com uma faixa preta separando as duas partes, as sapatilhas cor-de-rosa ocasionalmente se batiam à medida que ela remexia os pés
-- F-feliz aniversário, irm?o... - Deu um leve sorriso.
A da direita, Niline, tinha um rabo de cavalo lateral e uma vestimenta parecida com a anterior, sendo que ela usava longas luvas azul-marinho e a saia era mais curta, e mantinha seu olhar em si mesma através de um pequeno espelho.
-- Feliz aniversário, irm?o - N?o se deu o trabalho de olhar para ele.
Barn n?o prestou aten??o nas irm?s a sua frente, e sim no que estava atrás delas, um saco de pano marrom bem grande, que ele sabia que era onde estava seu presente.
Olhou para os dois lados do corredor e puxou suas irm?s e o saco para dentro, trancando a porta rapidamente.
-- Foram seguidas? - Estreitou os olhos.
-- Que que você acha? - Falou de maneira arrogante.
-- Se você diz – Se sentou no ch?o junto com as outras, bastante animado – Agora vem a melhor parte!
O saco foi aberto e o que estava dentro fora jogado no ch?o, e era um homem, um cambion, como eles.
-- Ele tá vivo? - Levantou a cabe?a do homem pelo chifre até a altura de seu rosto.
-- Se ele n?o teve um infarte, deve tá, n?o fui eu que trouxe - Deu de ombros.
A pergunta do ruivo foi logo respondida, quando o homem recobrou a consciência e olhou para ele, ainda confuso, se espantando ao reconhecer aqueles olhos.
-- Ann... v-voc-
Antes que pudesse terminar de falar, Barn agarrou sua jugular com os dentes, penetrando na carne macia profundamente e fechando sua traqueia, o impedindo de pedir ajuda. O homem até se debatia, mas com as m?os e pés amarrados escapar daquela situa??o n?o seria possível.
O cheiro do sangue escorrendo pela sua boca atingia suas narinas como se fosse um aroma doce, o que de alguma forma lhe deu motiva??o para puxar a fatia do pesco?o que havia mordido para si logo de uma vez.
Ele fechou sua mandíbula, levando n?o apenas a carne, mas também sua traqueia junto, seus dentes frontais rasparam contra o corpo das vértebras cervicais, que ficou levemente exposto.
Depois de silenciá-lo, apenas soltou seu chifre, o deixando se espatifar no ch?o e morrer sufocado pelo próprio sangue que adentrou os pulm?es.
“Hmm~! Que delícia~!” Pensou o zumbi, corando.
-- Eu tinha trazido uma faca, mas acho que isso serve – Tiline comentou.
-- Vê se vira ele pra lá, n?o quero sujar minha roupa de sangue – Niline se afastou do corpo.
-- Eu... eu... vou querer o bra?o... - Diline disse baixinho, evitando contato visual.
Barn apenas acenou, com a boca ocupada teve de usar as m?os, o que n?o foi difícil, arrancando o bra?o do resto do corpo e entregando a sua irm?.
A refei??o se seguiu assim, como qualquer outra, e claro que ele dividiu com as outras irm?s, mas ele comeu a maioria e n?o sobrou nem os ossos!
Depois de limparem a bagun?a, se despediu de suas irm?s e foi tomar banho, mesmo que já estivesse anoitecendo, n?o iria visitar seu amigo de pijama.
A roupa escolhida era uma cal?a azul-gelo com uma faixa preta amarrada como um la?o sendo usada como cinto, uma camisa social branca junto de uma gravata preta, com um casaco verde-claro fino por cima, as mangas eram largas e chegavam a cobrir suas m?os, e por último um cal?ado de couro marrom que n?o cobria os dedos nem o calcanhar.
Seu cabelo n?o havia mudado nada desde aquele dia, ent?o o penteou como sempre fez, com a franja cobrindo o olho direito.
Já estava para sair pela janela, quando se lembrou de sua espada na escrivaninha ao lado da cama; só iria visitar alguém, mas quem sabe o que pode acontecer? Pensou ele, levando a espada consigo.
Após andar por alguns minutos floresta adentro, parou na frente de uma pedra, se sentando sobre seus pés, com o nome ‘Le?nidas IV’ entalhado desajeitadamente nela.
-- Você disse que estaria aqui por mim quando eu atingisse a maioridade, mas era mentira, você partiu um mês antes, e nem foi de velhice, idiota... Seu filho nem tem idade pra me consolar - Cruzou os bra?os, estava genuinamente irritado.
-- Eu... sinto falta de você... - Se deitou no ch?o
-- é estranho, eu sei que morrer e deixar esse mundo é algo natural, na maior parte das vezes... e... n?o há como evitar, e mesmo sabendo que um dia você vai renascer e posso até te reencontrar, n?o consigo evitar de sentir isso... - Suspirou
-- Eu nem me senti culpado por ter te devorado minutos depois de você partir, mas eu acho que isso é normal... - Fechou os olhos.
Foi interrompido de seus devaneios por um grito, o som era baixo por estar vindo de longe, porém tinha certeza de que vinha de uma crian?a.
-- Isso n?o é problema meu! - Gritou desnecessariamente, presumindo que por já ser noite, a crian?a era a presa de algum delta.
Mas havia algo que ele n?o poderia ignorar, um som que repetia e n?o era de uma voz, e sim que vinha da alma de alguém.
Tec, Tec, Tec... Tec Tec... Tec Tec..
“Um pedido... de socorro...? Só quem faz esse tipo de som é...” Abriu os olhos repentinamente.
-- Devoradores de alma... - Se levantou bruscamente e correu na dire??o do som, o modo como corria, no entanto, n?o era com duas pernas e sim de quatro.
“Mas porque ele estaria pedindo ajuda? N?o tem ninguém com uma arma igual a minha por aqui, será que ele n?o consegue usar seus poderes para se defender?” Chegou à conclus?o de que o grito infantil de antes vinha de um devorador de almas.
Ao chegar mais perto, avistou três figuras perto de uma árvore, uma garota e dois garotos, um deles era menor e sua boca estava sendo tampada pelo outro, enquanto a garota parecia intimidar a crian?a com uma faca.
N?o tinha sido só ele que ouviu o chamado, na dire??o oposta alguém estava vindo ao socorro da crian?a, mas parou no meio e fugiu ao perceber que Barn também havia ouvido.
“Tem outro... e está se movendo muito rápido, esse é com certeza perigoso, ao contrário da crian?a...” Freou bruscamente na frente dos três, ficando de pé novamente.
Os mais velhos recuaram, eram adolescentes e usavam uniformes escolares nas cores azul-marinho e vinho, a garota era loira e além dos chifres sua cauda tinha um triangulo na ponta, uma delta, já o garoto, de cabelo escuro, tinha um trevo de três folhas na ponta da cauda.
-- Vocês dois, podem sair daqui? Sabe, agora? - Segurou o cabo da espada e sorriu.
“Detesto esses dois, mas n?o posso deixá-los morrer desse jeito, que saco” Os observou fugirem “Bom, eles n?o foram na mesma dire??o daquele monstro, ent?o devem ficar bem”
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Olhou para o garoto encostado na árvore, sua roupa era simples, uma camisa branca e um short marrom, em más condi??es, sem cal?ados. Seu cabelo preto e curto estava bagun?ado, com dois chifres negros pequenos nas laterais da cabe?a, orelhas pontudas, uma cauda fina com um cora??o invertido na ponta
A crian?a mantinha seus olhos fixos no zumbi, estava terrivelmente assustada, cobria um ferimento no bra?o direito com a m?o, o sangue que n?o parava de escorrer já havia sujado suas roupas e a grama.
“Um íncubo sendo o lanche de um delta... Por que n?o estou surpreso?”
-- Seu corpo tá em um bom estado, foi corrompido recentemente ou o corpo é novo? - Sorriu sarcasticamente.
A cada passo que dava o garoto parecia se encolher mais e quando se agachou em sua frente, só lhe restava tremer e implorar por sua vida.
-- P-por favor, n-n?o me... me m-m-mate - Come?ou a chorar em completo desespero, tentando se recompor para n?o gaguejar.
-- Será que eu devo? N?o sei n?o hein – Cruzou os bra?os e inclinou a cabe?a para o lado.
-- Eu sou diferente, eu n?o preciso devorar almas, acredite em mim! - Agarrou o casaco de Barn.
Sua resposta foi apenas um tapa seco.
-- Quantas vezes você acha que palavras assim saíram da boca de um verme igual? - Apertou a mandíbula do garoto e o for?ou a encará-lo.
-- Eu n?o t? mentindo... *hic* *hic*
O encarou com desgosto até perceber algo estranho.
“Ele tá... quente” Soltou o garoto surpreso.
Encostou a cabe?a em seu tórax para ouvir os batimentos.
TUM TUM TUM
“Est?o normais”
Prosseguiu em cheirar todo o corpo do pequeno.
“Cheiro fofo~!” Revirou os olhos, mas logo balan?ou a cabe?a e tento focar no que importava.
-- Você tá vivo...? - Limpou a baba que escorria pela boca.
-- O que você acha? - Ainda estava choroso e agora envergonhado.
“Será que eu me enganei e ele é só uma crian?a normal? N?o, deve ser outra coisa” se concentrou em visualizar a parte escondida da alma dele.
-- A sua alma... você só é metade devorador... um semi-corrompido... nunca vi alguém como você antes garoto – Deu um leve sorriso completamente fascinado.
-- Vai me deixar ir? - Continuava receoso.
-- é claro que n?o! Por que eu faria isso se eu posso estudá-lo à vontade? Você vem comigo! - Sua empolga??o era contagiante, menos para a crian?a.
De repente dois bra?os surgiram do tronco do zumbi e agarram o garoto e eles seguiram viagem de volta ao quarto de Barn.
Chegando lá o ruivo entrou sorrateiramente pela janela e depois de p?r os pés no ch?o e trancar a janela, percebeu que havia alguém em seu quarto.
Rapidamente escondeu o menino e se virou para ver quem era, e sentada na poltrona estava sua irm? de bra?os cruzados.
Ela tinha cabelo castanho, amarrado em dois rabos de cavalo desajeitados nas laterais da cabe?a, olhos dourados, uma cauda como a dele, mas com a ponta parecida com um chapéu de bruxa, blusa verde-musgo, cal?a moletom cinza, jaleco branco com um crachá, botas de couro pretas. Com cerca de 2,15 metros, parecia imponente.
— O que é isso... na sua roupa? — Arqueou a sobrancelha.
— Nada! N?o é nada! O que faz aqui? E como entrou no meu quarto? — tentava disfar?ar a rea??o exagerada.
— Eu tenho uma cópia da chave, enfim, seu pai pediu pra lhe dizer que ele espera que você pare de sequestrar crian?as, porque ele n?o pode garantir que te livrará de puni??es se isso acontecer novamente.
— Meu pai disse isso? — perguntou desconfiado.
— Ele sabe que você n?o pararia com essas esquisitices mesmo que ele implorasse... como está fazendo agora, ou achou que eu n?o notaria? — apontou para o que os bra?os dele tentavam esconder.
Percebendo que foi pego, Barn fez uma express?o cabisbaixa, jogando o menino na cama, que era bem grande para ele.
— Você pode... n?o contar pra ele, por favor? — tentou suborná-la com uma express?o fofa.
— Você agora é adulto, o que faz n?o me interessa — Deu de ombros, indo até a porta e abrindo-a para sair, mas parando. — Mas se ele perguntar... eu vou contar! Tchau~! — fechou a porta com um baque.
Barn correu para trancar a porta antes que outra irm? aparecesse. Respirou fundo, inspirando lentamente, permitindo-se relaxar, pelo menos por ora.
-- Se esse corpo morrer posso escapar, sabia? N?o vai fazer nada? Eu t? sangrando. - Ainda mantinha a m?o pressionando o ferimento.
“Esqueci que ele tava vivo, mais uma coisa pra eu me preocupar, que ótimo”
Caminhou até o garoto, tirando sua m?o da frente para visualizar o ferimento melhor.
“é bem profundo, dá até pra ver o osso... aquela delta deve ter tirado um peda?o dele com a faca que tava na m?o” P?s a m?o no queixo.
-- O que aquele outro queria com você? A garota eu entendo, a espécie dela é canibal, mas aquele cara n?o - Cortou a palma da m?o com a unha e pingou seu sangue no ferimento, que come?ou a se curar – Conhecendo-o, chuto que você ser um íncubo tenha a ver.
-- O que você tá dizendo...? Eu sou uma crian?a, uma crian?a pequena! - Puxou seu bra?o, ficando na defensiva.
-- A família dele vende escravos de qualquer espécie, eu n?o acho que você ser crian?a importe alguma coisa pra ele, sinceramente.
-- Eu sou seu escravo agora, é isso? - Seus olhos já estavam lacrimejando.
-- Eu nunca disse isso e eu n?o concordo com isso, n?o me entenda errado – Parecia querer deixar isso bem claro.
-- Você me bateu e me sequestrou, do que você tá falando, seu idiota? - Estava incrédulo.
“Devia ter batido mais, esse pivete...!” Sorriu, tentando esconder a vontade de espancá-lo.
-- Que tal esquecermos isso e focar no que importa? O seu nome, qual é?
O garoto estava um pouco relutante, mas n?o achava que tivesse tantas op??es.
-- é Kazumi, Kazumi Kardiá... - Apesar de ter parado por aí, Barn sentia que ele n?o disse tudo.
“Kardiá...hein? me pergunto qual será o outro sobrenome...”
-- Você querer proteger sua família de mim é louvável, mas eu n?o acho que contar seu primeiro sobrenome fosse uma boa op??o.
-- Você iria descobrir de qualquer jeito...
O ruivo n?o queria prolongar mais a conversa, e como a roupas dos dois estava suja de sangue, decidiu tomar um banho.
Afastou-se do garoto e foi escolher um pijama para dormir, achava melhor deixá-lo descansar antes de come?ar os testes e n?o podia dormir com a roupa cheia de sangue — n?o que o cheiro o incomodasse, pelo contrário! Mas atrairia visitas indesejadas.
“Esse n?o, muito simples... Esse também n?o, muito masculino... Esse... rosa com gatinhos... é perfeito! Vou dar banho nele também, ainda bem que tenho roupas do tamanho dele guardadas”
Banho tomado, os dois estavam com pijamas combinando, o que desagradou Kazumi, que além de ter lhe dado banho, trocou suas roupas como se ele n?o pudesse e agora se sentia mais sujo, ao contrário do que realmente estava.
-- Vamos dormir ent?o? - Abra?ou o garoto como se ele fosse um ursinho de pelúcia, o que o deixou imobilizado.
Na chegada da manh?, o sol nada ilumina na terra dos dem?nios, sem dias claros por metade do ano. Uma jovem empregada empurrava um carrinho pelos corredores, com o que possivelmente seria comida, bastante comida. Era magra, com cabelo bege, olhos castanhos, usava uma roupa típica de empregada, com mangas longas, a saia indo um pouco acima do tornozelo, botas de couro marrom, dois chifres marrons que pareciam galhos nas laterais da cabe?a, e uma cauda verde com uma flor dourada na ponta. Caminhava sorridente; essa era Inéz, primeira filha e herdeira da Casa Loulóudi, que havia largado seus deveres para estar perto do seu amor.
Continuou andando por mais alguns metros, até chegar a uma porta dupla de madeira clara, com detalhes em preto.
Retirou uma chave do bolso, presumindo que a porta estivesse trancada, e estava mesmo. Ao abrir a porta, revelou-se tratar do quarto de Barn, que ainda dormia. Trancou-a novamente ao entrar, guardou a chave e deixou o carrinho na frente da cama, posicionando-se ao lado de Barn, observando-o. Ele dormia t?o sereno e despreocupado, com aquela coisa preta ao seu lado... coisa... preta...?
Levantou a perna direita, tirando uma de suas botas cuidadosamente e preparando-se para atirar no que quer que fosse aquilo.
— N?o fa?a isso — advertiu o ruivo, totalmente acordado.
A garota cal?ou a bota novamente, sorrindo para ele e ignorando a coisa ao seu lado.
— Bom dia, Mestre! Sabia que você é muito bonito quando está dormindo? às vezes, até tenho inveja de quem se casará com você no futuro. Imagina te ter como marido, quer ser o marido de alguém n— Whoa! — gritou quando sentiu alguém agarrar sua cauda e cheirar a flor na ponta dela. Sentindo-se envergonhada, tomou-a rapidamente de sua m?o.
— Se eu comer isso, n?o cresce de volta, n?o é? — perguntou Barn.
— N?o! Cresce... mas eu ficaria fraquinha, seria um sacrifício que eu teria de fazer... — dramatizou, pondo a m?o na testa, dando uma corridinha para perto do carrinho.
Barn espregui?ou-se ao vê-la se afastar, deitando-se mais perto do garoto ao seu lado. Sacudiu-o gentilmente, vendo seus olhinhos se abrirem pregui?osamente e se arregalarem em um instante ao notar que n?o era um sonho, tensionando o corpo para trás.
-- Por que você quer me estudar afinal? - Apertou a coberta sobre seu colo.
-- Eu já te respondi, mas se o lance de n?o precisar devorar almas for mesmo verdade, e nem que precisa ficar trocando de corpo constantemente, ent?o deixo os outros iguais a você em paz - Foi sincero, n?o havia motivos para esconder.
— E o que vai acontecer comigo?
— Honestamente, n?o sei — deu de ombros, afastando-se dele e sentando-se na beira da cama.
Kazumi sentiu-se ansioso sobre seu futuro incerto. Esperava que, se as coisas ficassem muito ruins, sua m?e aparecesse. Rezaria a deus para que ficasse bem e, mais importante, que continuasse bonito!
Desceu da cama com cuidado, pois seu corpo ainda era pequeno e a cama relativamente alta. Se n?o descesse com cuidado, poderia se chocar contra o ch?o de maneira nada agradável. Ao encostar os pés no piso de madeira, reparou novamente na roupa que usava.
Ajoelhou-se, sentando-se sobre os pés, fechou os olhos e entrela?ou os dedos.
“ó meu Deus, Grandioso Nicodemos, Divindade do Amor, da Beleza e do Descanso, proteja-me desse ser nefasto que quer me possuir sem a sua devida aprova??o. Impe?a-o de deturpar minha pureza e oriente-me a n?o cair em tenta??o. Negue-nos o amor, dê-nos beleza, dê-nos descanso e esclare?a minhas dúvidas, de sua crian?a, Kazumi Kardiá Shifen.” Sentiu suas orelhas se aquecerem em resposta, ficando aliviado ao ser respondido negativamente.
Barn o olhava com curiosidade, enquanto apreciava um peda?o de carne. Inéz, por outro lado, parecia perplexa com a cena, o que deixou o garoto levemente confuso.
A garota encarou o ruivo, fazendo sinais de nega??o, segurou seus ombros e olhou-o bem nos olhos.
— Você sabe como eu te amo e sempre te apoio em tudo, mesmo nas coisas mais questionáveis e bizarras possíveis, mas trazer um dem?nio do norte?! Você sabe como os seguidores dos deuses e cultuá-los é malvisto aqui. Ou está se esquecendo do porquê n?o gostam de você? E olha que você nem vai com a cara dele! — tentou botar juízo na cabe?a dele.
— N?o sei por que você está preocupada. Relaxa, eu vou “consertá-lo” — disse com um sorriso bobo. — E vou trancá-lo lá embaixo... Enfim, vou ter muito trabalho esses dias, muita coisa acumulada, sabe? Preciso que você deixe meu quarto em perfeito estado para quando eu voltar. Posso contar com você?
— é claro que sim... — respondeu Inéz, n?o muito entusiasmada.
Barn retirou o pijama e vestiu algo mais apropriado para sair: uma camisa branca, cal?a e sapatos pretos, tudo muito simples, já que teria de tirá-los depois, de qualquer jeito.
Voltou o olhar para o garoto, que ainda estava sentado no mesmo lugar, pegou as roupas que havia retirado dele e aproximou-se, agachando-se para ficar mais à sua altura.
— Essas roupas têm algum valor emocional para você ou algo assim? — jogou-as na frente dele.
— N?o...
— ótimo, vista-as.
— Na sua frente?! — encolheu-se, com as bochechas vermelhas, tentando cobrir o corpo.
— Eu me viro, tá bom para você? — levantou-se, ficando de costas para ele. — Você é claustrofóbico?
— N?o...?
— Bom...
Ficaram em silêncio por algum tempo, esperando que o garoto trocasse as roupas. Barn balan?ava-se para frente e para trás.
— Já terminou...? — perguntou, interrompido por uma batida na porta antes que pudesse ser respondido, voltando sua aten??o para ela. — Fique bem onde está.
Como Inéz já havia ido embora, levando as coisas que trouxera, se atendesse a porta, o garoto ficaria sem supervis?o.
Perguntou-se se era uma de suas empregadas pessoais, a única que batia na porta, Ariel, ou um de seus familiares. Preferia a primeira op??o e ficou aliviado ao confirmar que era ela.
— Ainda bem que você n?o é meu pai.
A mulher o encarava indiferente, segurando uma caixa de algum tipo de metal. Seu cabelo verde-claro formava dois coques laterais e duas mechas à frente do rosto, olhos azuis profundos, orelhas arredondadas, sem chifres nem cauda, talvez n?o fosse um dem?nio. Usava a mesma vestimenta que Inéz.
— Trouxe o que vossa senhoria me requisitou — entregou a caixa a ele. — Sua carruagem está esperando pelo senhor, como ordenou. Agora, irei me retirar. Se precisar de mais alguma coisa, estarei logo ao lado.
— Como você pode ser t?o melhor que as outras? — disse Barn, com um grande sorriso no rosto.
— Apenas fa?o meu trabalho. Com sua licen?a — ela fez uma reverência e dirigiu-se ao corredor, posicionando-se ao lado da porta.
Barn encostou a porta e levou a caixa para perto de Kazumi, que temia o que poderia acontecer. Colocou a caixa sobre a cama, abrindo-a ao pressionar a m?o em cima dela, revelando que estava completamente vazia.
Pegou o garoto, que já havia terminado de se trocar, e colocou-o dentro da caixa, que era pequena demais para seu corpo, obrigando-o a ficar encolhido.
— Por que tenho que ficar nessa coisa apertada? — resmungou Kazumi, muito desconfortável.
— é obrigatório colocar nossos “pertences especiais” em caixas como essas para entrar com eles. Quando chegarmos, n?o serei eu quem vai abrir a caixa, e talvez demore um pouco para você me rever — explicou, sendo interrompido por Kazumi quando iria fechar a caixa.
— ‘Pertences especiais’?
— é um nome chique para cobaias — disse Barn, fechando a caixa antes que ele pudesse perguntar mais, que só poderia ser aberta por um número limitado de indivíduos.
Com tudo pronto, uma carruagem o esperava, e ele estava bastante animado. Saiu do quarto rapidamente, descendo as escadas escorregando pelo corrim?o, correndo animadamente para fora da mans?o, onde se deparou com uma enorme e exuberante carruagem.
Era de um tom de azul escuro, agradável aos olhos, com detalhes brancos nas portas, janelas e rodas, que eram bem grandes.
Puxando-a, em vez de cavalos, havia dois dem?nios hexápodes com quatro patas dianteiras, caudas longas, chifres negros curvados para baixo, bocas alongadas, sem olhos nem orelhas, com pele negra arroxeada. Esperavam calmamente pela chegada de Barn, que, ao notarem sua presen?a, um deles perguntou:
— Para onde vamos, mestre?
— Para o Centro de Pesquisas! — exclamou Barn alegremente, mal podendo esperar para come?ar os testes.

