...
“Toc-toc”
“Crec... crec... crec... Raaang”
Huh?
Onde é que eu t??
Eu... n?o tinha morrido?
Eu tentei abrir meus olhos, mas era como se n?o existissem ainda.
N?o podia me mexer e estava boiando em algum tipo de líquido quente.
Era confortável.
“Oque foi, amor? Você parece meio pálida.”
Que voz é essa? Quem tá aí?!
Senti um pequeno tremor e o som de molas apertando. Parecido com o som de uma cama.
“Leonardo... eu tenho que te contar uma coisa.”
M?e?
“Mas, eu quero que você me prometa que n?o vai surtar.”
“Marisa, você tá me assustando—”
“Por favor, Leo, só promete.” Ela interrompeu.
“Tá bom, tá bom! Eu prometo.”
Houve um pequeno tremor de novo.
“Bem... Você sabe que eu fiquei muito mal esses dias. Cansa?o, v?mito, febre... Você veio me visitar. Você viu.”
“Sim, mas você disse que já estava melhor, n?o é?”
“é, mas esse n?o é o ponto...”
Eu conseguia sentir a hesita??o nela, mesmo n?o à vendo.
“A minha... A minha menstrua??o n?o desceu e eu...”
Sua voz tremia, se tornando cada vez mais baixa, como se estivesse prestes à desabar.
Eu senti outro movimento, ela esteva pegando alguma coisa.
“Olhe... Eu comprei três testes na farmácia e todos... todos deram positivo.” Ela solu?ou por um instante. Já estava chorando.
“Só, por favor, me escuta. Eu juro por Deus que n?o quebrei nossa promessa! Eu nunca te trairia. Nunca. JAMAIS!”
“Eu... Eu n?o sei o que isso significa. Eu n?o sei o que fazer... Eu estou com medo...”
“Mas n?o me deixe, por favor. Eu n?o aguentaria...”
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
“Leo? Pra onde você tá indo?”
“Leo, volta. Leo! LEO!”
Ent?o ficou difícil de respirar. O líquido quente havia sumido.
Me sentia enterrado. Sufocado.
Cavei pra cima desesperadamente, até que vi uma luz e—
Micah respirou como se tivesse prendido a respira??o por dias a fio. Mas ele tinha dificuldade, como se seus pulm?es estivessem “colados” e lentamente se abriam enquanto ele arfava.
Quando recolheu f?lego o suficiente, percebeu seus arredores.
Ele tinha saído de um buraco no ch?o, estava nu e sujo de terra e barro.
Por um instante, Micah ficou apenas ali, de joelhos, com as m?os cravadas no solo úmido, como se o mundo ainda estivesse decidindo se permitia sua presen?a. O ar parecia pesado demais, espesso, e cada inspira??o vinha acompanhada de uma leve ardência, como se seus pulm?es estivessem sendo usados pela primeira vez — e n?o gostassem disso.
Ele tossiu.
O som saiu rouco, carregado, mais próximo de um reflexo do que de um ato consciente. Cuspiu algo escuro no ch?o — terra misturada a catarro — e só ent?o percebeu que seu peito doía, n?o como uma ferida, mas como uma ausência recente. Algo faltava ali. N?o um órg?o. Um costume.
Micah tentou se levantar.
As pernas obedeceram com atraso, trêmulas, como se ainda estivessem lembrando como sustentar peso. Cambaleou para frente e quase caiu de novo, precisando apoiar a m?o no ch?o para n?o despencar. O contato com a terra enviou um arrepio estranho pelo bra?o — n?o era frio, nem quente. Era… íntimo demais.
Ele olhou para as próprias m?os.
A pele tinha um tom estranho, acinzentado, com veios sutis mais escuros sob a superfície, como argila recém-moldada. No lugar nas queimaduras n?o havia cicatrizes, mas despigmenta??es semelhantes à marcas de nascen?a, como se suas feridas tivessem se tornado parte dele. Havia pequenas fissuras quase invisíveis nos nós dos dedos, rachaduras finas demais para serem feridas. N?o sangravam. N?o doíam.
Micah passou o polegar pela palma da m?o esquerda.
No centro, a pele era mais clara. Sensível. Um desconforto vago surgiu ali, sem memória associada, como se aquele ponto tivesse sido pressionado contra algo duro por tempo demais… em outra vida. Ele franziu a testa e fechou a m?o, afastando o pensamento.
— Que porra… — murmurou, mas a própria voz soou errada.
Mais grave. Mais oca. Como se tivesse atravessado um espa?o grande demais antes de alcan?ar seus ouvidos.
Foi ent?o que percebeu o silêncio.
N?o um silêncio natural — mas um vácuo. Nenhum inseto. Nenhum pássaro. Nenhum vento real. Apenas o som distante de folhas se movendo, tarde demais para serem responsáveis por aquilo. Como se o lugar tivesse prendido a respira??o junto com ele.
Micah finalmente conseguiu ficar de pé.
A primeira coisa que sentiu foi vergonha — instintiva, humana. Estava nu. Vulnerável. Exposto. Cruzou os bra?os sobre o corpo, tentando se cobrir, e foi aí que seus dedos tocaram o próprio abd?men.
Ele congelou.
Algo estava errado.
Micah olhou para baixo.
Onde deveria haver um umbigo… n?o havia nada.
Nenhuma cicatriz. Nenhuma marca. Nenhum sinal de liga??o anterior. Apenas pele lisa, interrompida por uma linha quase imperceptível que subia pelo centro do abd?men, t?o sutil que só era visível quando a luz batia de lado.
Ele tocou o local com cuidado.
Nada.
Nenhuma dor. Nenhuma sensibilidade extra. Apenas uma estranha sensa??o de que aquele ponto nunca havia sido usado para nada.
— N?o… — sussurrou, mais para si mesmo do que para o mundo.
Um enjoo lento subiu pelo est?mago. N?o de nojo — de deslocamento. Como se algo fundamental estivesse fora do lugar, mas ninguém tivesse lhe avisado.
Micah levou a m?o ao peito.
O cora??o batia.
Forte. Regular. Alto demais.
Cada pulsa??o reverberava pelo corpo inteiro, ecoando nos ouvidos, no cranio, nos dentes. N?o parecia um órg?o discreto fazendo seu trabalho — parecia um martelo insistente, anunciando presen?a.
“Eu t? vivo…”
A constata??o n?o trouxe alívio.
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Trouxe suspeita.
Ele passou a m?o pelo rosto, sentindo a textura da pele suja de barro seco. Quando tocou o lado esquerdo do tronco, logo abaixo das costelas, um desconforto agudo fez seus dedos se retraírem instintivamente. N?o havia ferimento ali — apenas uma dor profunda, surda, como a lembran?a de algo que nunca tinha acontecido… mas que o corpo insistia em guardar.
Micah respirou fundo. O ar entrou melhor dessa vez.
Ainda assim, algo parecia errado na forma como o mundo reagia a ele.
Quando deu um passo para fora do buraco, notou que sua sombra demorou a acompanhá-lo — um atraso mínimo, quase imperceptível. Piscar de olhos. Talvez imagina??o. Ele parou.
A sombra parou.
Deu mais um passo.
Ela veio junto.
Micah franziu a testa, o cora??o acelerando de novo. Balan?ou a cabe?a, tentando afastar a paranoia.
“Calma. Você acabou de… seja lá o que for isso. N?o pira agora.”
Foi ent?o que percebeu o cheiro.
Terra molhada. Raízes esmagadas. Algo metálico, distante, como sangue antigo… mas n?o podre. N?o havia cheiro de morte ali. Nenhum. Apenas o odor de um campo depois da chuva.
Como se algo tivesse sido plantado.
E colhido cedo demais.
Micah olhou para trás.
O buraco de onde havia saído já come?ava a ceder sozinho. A terra escorria lentamente para dentro, se fechando, apagando qualquer vestígio de que algo — ou alguém — tivesse emergido dali.
Nenhuma lápide.
Nenhuma marca.
Apenas ch?o intacto.
Uma sensa??o estranha apertou seu peito. N?o medo. N?o alívio.
Era algo mais próximo de culpa, embora ele n?o soubesse dizer por quê.
Como se tivesse voltado quando n?o devia.
Ele p?s a m?o sobre o peito e lembrou do cordeiro que viu em seu Núcleo.
“Isso foi coisa sua, n?o é?”
Micah abra?ou o próprio corpo, sentindo o calor estranho da própria pele, e deu o primeiro passo para longe daquele lugar — ainda sem saber para onde ir, apenas com a certeza inc?moda de que… a morte tinha cumprido sua parte.
E agora,
era ele quem estava em dívida.
Caules de trigo dobravam sob seus pés a cada passo. Ele estava em uma fazenda n?o muito grande, mas bem cuidada e com uma planta??o diversa — bem diferente das outras fazendas da margem alta, que eram exclusivamente monoculturas de trigo ou milho.
A cidade em que foi linchado n?o estava muito longe, só uns vinte minutos de caminhada no máximo.
Micah sentiu um pingo na cabe?a.
Já era fim da tarde, mas o céu estava mais escuro do que o comum.
N?o demorou muito pra come?ar uma tempestade. O céu parecia gritar através dos trov?es. A ventania junto da cachoeira vinda dos céus castigava Micah em sua nudez.
Ele correu em dire??o à um celeiro próximo.
Trancado.
Foi em outro.
Também trancado.
Até que foi ao terceiro, que estava aberto o suficiente para se esgueirar pela porta, e entrou.
Dentro havia porcos e vacas que se assustavam com cada trov?o, mas ele n?o se importava já que o lugar estava seco e quente.
Tremendo, Micah deitou-se em um monte de palha e tentou se aconchegar.
A tempestade parecia n?o dar trégua, ent?o mergulhou em devaneio.
“E agora? Eu n?o sei pra onde ir...”
“Merda... eu ainda n?o acredito que isso tá acontecendo comigo. Eu só quero ir pra casa...”
“Mas... espera, por que eu quero ir pra casa mesmo?”
“Eu n?o tenho ninguém me esperando. N?o tenho mais família. N?o tenho amigos. N?o tenho namorada.”
“Pra que voltar? Pra voltar a trabalhar naquele lugar infernal? Pra voltar à ter vizinhos que n?o me deixam dormir? Pra voltar à ter aqueles “colegas” de trabalho que n?o me deixam em paz?”
“Mas... eu também n?o quero ficar aqui.”
“Eu nem ao menos consigo morrer agora.”
Ele encarava uma bezerra no ch?o. Ela se escorava contra a m?e, tremendo de medo enquanto choramingava a cada estrondo.
“Como será que minha m?e está... desde que... a abandonei?”
“ ... “
“Talvez o que eu precise fazer agora seja... achar uma forma de morrer.”
“Um jeito de acabar com esse Inferno de uma vez por todas.”
Micah suspirou ao olhar pro teto, seus olhos ficando pesados.
Mesmo com o barulho dos animais, tudo que aconteceu nesses últimos dias foi t?o cansativo que ele apagou de exaust?o, entrando em um sono profundo.
...
“Ei...”
“EI!”
— ACORDA, filho de quenga!
Micah piscou, gemendo em protesto enquanto seus ombros eram chacoalhados.
Assim que levantou a cabe?a o odor de álcool doce e madeira velha invadiu suas narinas.
Um homem de cabelos castanhos obcecadamente penteados e olhos azuis intensos o segurava. Ele usava um uniforme preto de Luther — era um soldado.
Seus olhos arregalaram ao avistarem a face cansada de Micah.
— Caraí, manin... N?o é que a véia tava certa? O cara tá vivo!
O ruivo n?o daria sorte pro azar outra vez. Assim que se deu conta da situa??o, sai correndo em um bote.
Fugiu o mais rápido que pode, no entanto, em meio à corrida, percebeu que os dois soldados n?o o perseguiam — apenas caminhavam tranquilamente. Pareciam ter total controle da situa??o.
Alguém come?ou a tocar um viol?o na distancia.
Era uma melodia calma. Lenta. Quase melancólica.
A princípio o efeito era imperceptível, até que se tornou impossível de ignorar.
Micah se sentia lerdo, cada passo cobria menos distancia, mesmo que mante-se o mesmo ritmo de fuga.
Ent?o se tornou imóvel.
Ele se esfor?ava e tentava acelerar o passo, mas n?o saia do lugar, como se estivesse em uma esteira.
O viol?o se aproximava.
Diante disso, seu corpo n?o aguentou mais, e caiu de joelhos.
Uma m?o tocou seus ombro.
E a melodia encerrou.
— Já cansou de correr, ruivinho?
O mesmo homem que o acordou se ajoelhou à sua frente, prendendo o viol?o velho em suas costas como alguém embainha uma espada.
— Que tal nos acompanhar agora, hm?
...
O caminho até a Cidadela foi feito quase todo em silêncio.
Micah caminhava entre o soldado de olhos azuis, que tinha a mesma bra?adeira com um olho dividido ao meio que viu em Eastmund, mas preta, e seu companheiro — que logo percebeu que se tratava do Gunther, o mesmo que viu no port?o à Ilha Central.
Ele estava envolto em um manto simples demais para o tamanho do lugar em que estava. A ilha central se erguia à frente como um bloco de pedra recortado contra o céu carregado, ligada ao resto da cidade por pontes estreitas e guardadas. A chuva já havia cessado, mas o ch?o ainda devolvia o frio em cada passo.
A Cidadela n?o parecia feita para acolher pessoas.
Era funcional. Geométrica. Antiga demais para precisar se justificar.
No port?o principal, ninguém fez perguntas. Bastou um gesto do músico e o símbolo de Luther costurado em seu uniforme para que as lan?as se afastassem em silêncio.
Subiram.
O primeiro andar era mais baixo do que Micah esperava. Corredores largos, ilumina??o contida, paredes marcadas por inscri??es desgastadas pelo tempo. N?o eram versos nem preces — pareciam registros. Datas. Nomes. Linhas que se repetiam com pequenas varia??es. Acompanhadas por quadros de homens usando mantos dourados, coroas adornadas com pérolas ou até armaduras completas.
Os soldado com o instrumento parou diante de uma porta de madeira escura, refor?ada por metal fosco.
Sem bater, empurrou.
O Escritório de Vigília era maior por dentro do que sugeria do lado de fora.
Uma única janela alta deixava entrar a luz tímida da madrugada, cortando o ambiente em duas metades. De um lado, estantes repletas de livros, pergaminhos e caixas seladas. Do outro, uma mesa larga, tomada por mapas, relatórios e instrumentos estranhos — discos de vidro com padr?es em espiral, cubos pequenos que pareciam de bismuto, pe?as que Micah n?o reconhecia.
Uma máquina estranha estava no canto da mesa. Era semelhante à um gramofone, mas com um corpo de bronze escuro, uma corneta de Prata Viva e duas agulhas adjacentes sobre sua base.
Atrás da mesa, sentado, estava o mesmo homem que matou o monstro flamejante de três dias atrás.
Ele estava mais velho do que Micah lembrava. N?o muito — o suficiente para que o cansa?o fosse visível, mas n?o dominante. Talvez fosse apenas estresse. Ao invés de sua armadura, usava um gib?o prateado sem ornamentos excessivos, ajustado com precis?o, e no bra?o esquerdo tinha aquele mesma bra?adeira com um olho estampado, prateada. Os cabelos claros estavam presos para trás, como sempre, e os olhos… os olhos pareciam já saber.
— Capit?o-Paladino? — Chamou o soldado de olhos azuis.
Ele n?o falou de imediato.
Seu olhar passou pelo soldado, depois por Gunther, e por fim pousou em Micah
Demorou.
Micah sentiu o mesmo inc?modo de antes — aquela sensa??o de atraso, como se algo estivesse sendo medido fora do tempo comum.
— Ent?o… — disse o Capit?o-Paladino em fim, com a voz baixa e firme. — é verdade.
N?o era uma pergunta.
Dennisorfeu respirou fundo e assentiu uma única vez.
— Eu vi ele queimar com meus próprios olhos, Capit?o.
Ele fechou os olhos por um breve instante. N?o em descren?a — em cálculo.
— Gunther, ligue o Aurofone.
Assim que ouviu a ordem Gunther abriu uma das gavetas e retirou um disco de vidro claro, colocando-o sobre a base da máquina. Ele apontou a corneta em dire??o a Micah, soltou um dos cubos metálicos no centro e come?ou a girar a manivela.
Inesperadamente, o cubo flutuou no lugar.
Um zumbido baixo vibrava o ar a sua volta enquanto o disco girava, lembrando Micah do som de um gerador ligado.
— Nome. — disse, voltando-se para Micah.
— Micah. — respondeu ele, a voz ainda rouca.
— Sobrenome?
Micah hesitou.
— E isso importa?
O homem o observou mais um pouco, como se testasse a resposta.
— Importa menos do que deveria. — concluiu. — Aproxime-se.
Micah deu dois passos à frente. O ar parecia mais denso perto da mesa. Capit?o n?o tocou nele. N?o se aproximou demais. Apenas inclinou levemente a cabe?a, atento a detalhes que Micah n?o conseguia identificar.
— Você se lembra de morrer? — perguntou.
Micah engoliu em seco.
— Sim.
— E se lembra de nascer?
O silêncio se estendeu.
— …N?o como uma crian?a. — respondeu Micah. — Mas… sim.
— Como você ultrapassou a Oitava Dobra?
— O que?
O disco rachou, Gunther pulou de susto.
O Paladino suspirou, apertando as sobrancelhas juntas com os dedos.
— Eu... Eu alinhei as agulhas certinho! Eu juro! Eu n?o sei o que aconteceu—
O Capit?o endireitou-se.
— Isso é suficiente.
Ele caminhou até a janela, apoiando uma das m?os na pedra fria. Ficou ali por alguns segundos, observando a cidade abaixo, as pessoas saíam para trabalhar uma a uma e carro?as preenchiam as ruas conforme os port?es eram abertos
— Dennisorfeu. — disse, sem se virar. — Isso n?o é algo que minha patente possa resolver sozinha.
— Eu imaginei. — respondeu o bardo, sério, sem humor algum.
Ele voltou à mesa, pegou a cera que já havia derretido e um selo de metal escuro, pressionando-os contra um dos pergaminhos que acabara de escrever.
Mal esperou a cera secar direito antes de pegá-lo.
— Isso precisa subir. — afirmou. — E subir agora.
Ele ergueu o olhar para Dennisorfeu, estendendo-o o pergaminho.
— Entregue isso ao Duque Wanderson ou ao Margrave Lanselm. O que encontrar primeiro.
O bardo realizou uma continência e saiu da sala com a mensagem.
— E se o que você disse… — declarou em voz baixa, olhando novamente para Micah — …realmente aconteceu,
Houve uma pausa mínima, calculada.
— ent?o você acabou de ganhar uma dívida com algo muito além de qualquer compreens?o humana.
— E eu realmente espero que essa dívida n?o seja transferida à nós.
E pela primeira vez desde que acordara na terra molhada,
Micah teve a certeza clara de que continuar vivo talvez fosse a parte mais perigosa de tudo.
— Gunther, leve-o à alguma cela do subsolo por enquanto, e vê se p?e algo decente para ele vestir desta vez.
...
Depois de algumas horas, o som de chaves anunciou a abertura da cela.
Micah vestiu a túnica às pressas. O tecido áspero ainda pinicava contra a pele — como se fizesse quest?o de lembrá-lo de que n?o era bem-vindo em lugar nenhum.
— Venha. O Duque quer vê-lo.
A voz vinha do Capit?o à frente da porta. Dennisorfeu estava logo atrás, sério demais para alguém que costumava sorrir tanto.
Subiram em silêncio até o terceiro andar. Pararam diante de uma porta elegante demais para aquele corredor de pedra.
O Capit?o pousou a m?o na ma?aneta.
— Uh, Capit?o… o senhor tem certeza que—
— Mmm~ Isso… bem aí… n?o para n?o, linda…
A porta se abriu.
Micah congelou.
Um homem estava deitado de bru?os sobre um div?, o quadril coberto apenas por uma toalha frouxa, enquanto uma mulher seminua lhe massageava as costas sem qualquer sutileza.
— A-Ah! — ela gritou, correndo para se esconder atrás da mesa.
— Ué? Por que parou, amor?
O homem virou o rosto. Seus olhos se arregalaram.
— Aha! é você, Reblis!
— Irm?o!? — a mulher rosnou de trás da mesa. — Esqueceu como se bate numa porta, por acaso? Canalha!
Micah notou o choque imediato: mesmos olhos, mesmo cabelo. A semelhan?a com o Capit?o-Paladino era inegável.
O Duque se levantou, ainda só com a toalha, e abra?ou Reblis com entusiasmo excessivo, dando-lhe um tapinha nas costas.
Micah esperava um líder experiente, alguém marcado pelo peso do poder.
Em vez disso, encontrou alguém jovem demais, belo demais, descuidado demais. Os cabelos eram quase totalmente brancos, exceto por algumas pontas cor de mel. Quando sorriu, Micah percebeu os caninos de ouro.
— E aí, cabra macho? Trouxe o que pedi?
Reblis suspirou, o inc?modo contido com esfor?o.
— Sim. Mas o senhor n?o poderia ter adiado essa… sess?o?
— Fora de quest?o, cunhad?o. Preciso das m?os mágicas da sua irm? pra come?ar o dia.
Ent?o o Duque voltou-se para Micah. O avaliou dos pés à cabe?a, como quem escolhe uma ferramenta.
— Ent?o você é o morto-vivo de outro mundo… — disse, com um sorriso enviesado. — Bem, uma coisa eu sei: Desalmado você n?o é. Se fosse, eu já estaria sem rosto. Aha!
Micah desviou o olhar. O cheiro de incenso doce era forte demais, quase sufocante. Tudo naquele homem parecia exigir aten??o.
— Vou ser direto — continuou Wanderson, pousando a m?o em seu ombro com intimidade for?ada. — Você me causou um belo prejuízo com aquele monstrengo seu. Masss…
Ele se aproximou um pouco mais.
— A trégua com Kaelor tá por um fio. Vamos precisar de todo Desperto disponível. E você tem uma Imagem bem útil.
Wanderson ergueu dois dedos.
— Op??o um: você entra pra divis?o do Reblis e serve às For?as de Luther até o fim da guerra.
Baixou um dedo.
— Op??o dois: o Ezra encontra outro jeito de dar utilidade à sua Imagem.
O sorriso nunca deixou seu rosto.
— E ent?o?
Micah mordeu o lábio, se sentia jogado contra a parede.
As duas op??es eram ruins. Mas voltar para o Ezra...
Ele olhou para Reblis. Respirou fundo.
— Prefiro n?o voltar a ser cobaia.
O sorriso do Duque alargou, seus caninos reluziram.

