Prólogo: Suícidio Filosófico
“O que é torto n?o se pode endireitar; o que falta n?o se pode contar.”
Eclisiastes 1:15
Era uma noite como todas as outras nas ruas de S?o Paulo. Eu caminhava pela avenida sombria, iluminada apenas pelos postes, faróis de automóveis que, mesmo sendo altas horas da noite, permaneciam em um fluxo constante pelo logradouro, e por uma lua estranhamente grande e cheia, que parecia observar a cidade com um desdém silencioso. Seu brilho intenso refletia nas águas sujas do córrego ao meu lado, como um espelho distorcido da vida que ela iluminava. A textura prateada que tingia o mundo ao meu redor dava à paisagem um ar fantasmagórico, etéreo, como se a qualquer momento aquela lua arrogante fosse engolir tudo sob sua luz. Uma demonstra??o de sua superioridade cósmica e indiscutível.
Além da companhia dos carros que ziguezagueavam pela avenida, vi as figuras que sempre surgem nesse horário. Um mendigo curvado sobre seu próprio peso. Um drogado balbuciando para ninguém. Uma prostituta ajeitando a maquiagem sob a luz morta de um poste. às vezes, as três coisas convivendo num mesmo corpo desgastado. Todos vivendo suas vidas no limite do que ainda pode ser chamado de humano, mas, mesmo assim, todos pareciam ter algo que eu n?o tinha: um impulso, uma dire??o, por menor ou errada que fosse, algo que me faltava.
Mesmo após um longo dia como caixa de hipermercado, mesmo com o cansa?o acumulado e o corpo pedindo descanso, minha ins?nia n?o se abria à negocia??o. Ent?o caminhei. O dia seguinte era minha única folga da semana, mas o que eu faria com ela, além de deixar as horas passarem?
Quando cheguei ao corrim?o que ladeava o córrego, parei. Observei. As águas eram imundas, poluídas a ponto de um simples olhar bastar para sentir o cheiro do esgoto correndo, mas ainda assim claras o suficiente para refletirem meu rosto. Fiquei olhando para aquela imagem distorcida e grotesca, e uma única coisa passou pela minha mente: ela era um espelho perfeito.
O córrego era eu. Um recurso explorado, mutilado pelo tempo e pela indiferen?a. Antes uma fonte de vida, agora reduzido a carregar os dejetos dos outros, um meio para um fim que nunca foi meu. Fraco. Mutado. Impotente. N?o havia beleza, n?o havia glória, apenas a funcionalidade de um fluxo constante. E, como ele, eu também era um reflexo da cidade que me cercava: cinza, frio, descartável.
Micah é meu nome. Um nome que n?o lembro o significado. N?o sei por que minha m?e escolheu esse nome. Talvez fosse algum desejo frágil de diferen?a, um grito abafado contra a mediocridade que carregava, vindo de um desejo de compensar sua vida comum da qual sua antiga persona infantil teria nojo. Mas, para mim, ele é só mais um fardo. Sempre que me apresento, o nome vira um obstáculo, algo que os outros precisam ouvir mais de uma vez para compreender, uma pequena curiosidade para eles se divertirem às minhas custas. Micah. Mais uma inconveniência no conjunto de coisas que eu nunca escolhi, mas que carrego.
E minha vida, minha existência, pode ser resumida em uma única palavra: fraqueza.
Mas n?o é a fraqueza que me persegue. é pior que isso. Sou eu quem a persegue. Sempre fui fraco demais para seguir qualquer objetivo, para sequer ter um. Sempre fraco demais para tentar tornar minhas fantasias realidade, preferindo deixá-las aprisionadas em devaneios, vivendo na minha imagina??o tosca, toda vez que vejo uma mulher minimamente bonita no trabalho, ou uma injusti?a da qual nunca teria coragem o suficiente para resolver, a n?o ser na minha mente conturbada. Fraco demais para tomar qualquer decis?o, deixando que outros decidam por mim. E quando decido por algo, é sempre tarde demais para sequer considerar tornar algo mais que um sonho, mais que um fragmento de página na biblioteca imensa de fantasia que é minha cabe?a.
Até minha dependência é um reflexo da minha fraqueza. Dependo da piedade dos outros, da tolerancia silenciosa de quem está ao meu redor. E, em troca, dou minha mediocridade.
Fiquei olhando o reflexo no córrego, tentando encontrar algo, qualquer coisa que dissesse que eu estava errado. Que talvez houvesse algo em mim além disso. Que a lua cheia que reinava no céu n?o estivesse sendo um holofote do espetáculo patético diante dela. Mas o espelho n?o mentia. O córrego apenas refletia o que já estava lá: a verdade, esculpida por inúmeras provas dadas de bandeja pela minha vida, como um gar?om que serve sua própria cabe?a.
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E talvez fosse essa verdade que mais me incomodava. Porque, no fundo, eu sabia que n?o eram os outros que me oprimiam. N?o era a cidade. N?o era o córrego. Era eu mesmo. A mesma fraqueza que carreguei por anos e que me tornava menos que um homem. Talvez nunca tivesse sido um homem. Talvez nunca tivesse sequer existido de verdade. Afinal, o que é existir sem for?a? Sem impulso? Sem se impor?
Nietzsche dizia que a fraqueza n?o era uma ausência de for?a, mas um estado de espírito, uma escolha. E, olhando para aquele reflexo no córrego, percebi que ele estava certo. Eu escolhi ser assim. Talvez n?o conscientemente, mas escolhi. Escolhi ser um córrego que carrega o lixo dos outros em vez de um rio que rompe montanhas.
E, agora, a lua olhava para mim como se dissesse: "O que você vai fazer com isso, Micah? Você vai continuar?"
Eu n?o tinha a resposta. E talvez nunca tivesse.
Pulei o corrim?o de ferro, com a pintura descascada que revelava o interior enferrujado. Andei até a beira de concreto, e permaneci em pé, observando o fundo, a leve brisa com cheiro de carni?a como se fosse um chamado, como se sempre pertencesse junto aos dejetos daquele córrego escuro. Se eu pulasse de cabe?a, morreria instantaneamente do impacto do cranio com um dos canos, ou afogado lentamente nas águas imundas que se estendiam de leste a oeste, meus pulm?es se inundariam, eu me debateria por instinto, minha vida passaria diante de meus olhos e faleceria como mais um desconhecido.
Provavelmente seria listado como desaparecido, e meu caso seria arquivado após alguns dias, enquanto meu corpo se tornaria um com o corpo d’água, o cheiro d'minha decomposi??o se misturando ao das fezes.
Eu olhava para o córrego, e o córrego olhava para mim, meu fim a menos de um passo de distancia, no entanto, senti um calafrio na minha espinha, o suor frio corria pela minha nuca e manchava minha camisa surrada, me mergulhei no medo da mesma forma que mergulharia na água, e cai de costas no concreto, uma dor aguda se espalhou pelo meu corpo após o impacto, ofegava enquanto meu cora??o explodia fora do peito.
Me acalmei enquanto olhava o céu noturno, ainda deitado de costas sob o concreto frio, com uma dor insistente em toda a extens?o de minhas costas que reclamava minha insensatez. Eu n?o tinha for?as nem mesmo para acabar com meu sofrimento, cerrei meus punhos, meus dentes doíam com a for?a da qual eu mordia e finalmente chorei. Meus solu?os ecoavam através da avenida, acordando diversos cachorros que latiam insistentemente, minhas lágrimas molhavam meu rosto e se perdiam no cabelo ruivo, sentia minha garganta espetada por arame farpado enquanto expressava minha frustra??o presa.
Durante todo meu choro permaneci sozinho, e enquanto meus solu?os iam diminuindo, minha vis?o se tornando mais clara após minhas lágrimas secarem, percebi que um silêncio incomum dominava todo o entorno. N?o se ouvia mais os cachorros e seu coro de latidos, n?o se ouvia mais os carros que perambulavam pela avenida, o balbuciar dos drogados ou qualquer sinal mínimo de vida.
Me levantei e caminhei por onde tinha vindo, meus passos e batimento cardíaco os únicos sons a serem ouvidos. Pulei novamente o corrim?o e olhei a avenida. A esquerda, nada. A direita, nada. Nenhum carro, nenhuma pessoa, nenhum cachorro, nem mesmo um rato ou inseto sequer. N?o havia uma luz sequer, os postes e até mesmo as luz vinda de todas as casas estavam apagadas, a n?o ser a lua, que permanecia imponente sobre o céu, as estrelas haviam desaparecido, apenas a lua monopolizava toda luz.
De repente, o ar ao meu redor parecia vibrar, como se a própria noite estivesse prendendo a respira??o. A luz da lua tornou-se intensa, ofuscante, e uma dor repentina atravessou minha c?a?b?e???a? c????????????o??????m?????????o????????? u????????????m?????????????????????????????a????????????????????????????????? ??????????????????lam??????????????????????i??????????????????????????n???????????????????a??????????????????????????? ??????????—
Micah cambaleou.
Ele tentou recuperar o equilíbrio, mas o mundo ao seu redor come?ou a girar. Algo estava errado. Ele sentiu a terra escorregar sob seus pés, mas... “Espera, como ele sabe disso? Eu estou sob concreto, n?o terra.”
Como ousa me corrigir, moleque?
Ele estava vendo isso acontecer, ou era alguém—algo—vendo por ele?
Sua vis?o ficou turva. Ele caiu de joelhos, sentindo como se estivesse sendo puxado para algum lugar, m?os invisíveis arrancando sua alma, mas n?o eram suas m?os. Algo observava. Algo contava a história no lugar dele agora.
"O que está acontecendo?", ele gritou.
A pergunta ecoou, mas n?o era ouvida. Porque ele n?o estava mais no controle.
A luz da lua o envolveu completamente, cegando-o. Ele era apenas um fragmento, algo que olhava de dentro do próprio corpo enquanto era engolido pelo vazio.
E a voz surgiu. Distante, grave, um sussurro. Mas n?o era para ele.
Está na hora.
Tudo desapareceu…
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