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Capítulo 15: Reuniões

  No caminho de volta à Cidadela, no Jardim do Mérito, os dois passaram pela mesma estaca negra em que Micah foi morto. O est?mago embrulhava e ele sentia falta de ar só de estar no mesmo local de sua ruína temporária. Seu corpo o lembrava da pele esticando, de suas lágrimas fervendo, do som da gordura de seu próprio corpo pipocando...

  Ele caminhou mais rápido, saindo daquele lugar antes que tivesse um ataque de panico. Dennisorfeu estranhou, mas n?o comentou e continuou com o mesmo passo.

  Ent?o um arrepio afligiu Micah, fazendo-o parar. N?o era um arrepio comum de frio ou choque, mas era como uma língua áspera e fria passando por toda extens?o de sua espinha dorsal, lixando cada mínimo nervo e o deixando num estado frustrante entre sensa??es distintas; uma mistura de espirro interrompido e uma coceira inalcan?ável que afetava o próprio tutano dos ossos.

  Por vontade própria ou n?o, ele olhou pro ch?o.

  E seu cora??o parou.

  Ignorando toda lógica, sua sombra apontava algo com dedo, enquanto ele estava lá. Imóvel.

  O gesto levava à uma carruagem em frente ao Mercado Ducal — bordada com um bras?o em fios dourados e carregada por cavalos brancos de crinas penteadas. O bras?o mostrava uma lan?a e um martelo entrela?ados atrás de um escudo, o qual dividia duas cenas diagonalmente: um cavaleiro derrotando algo que parecia um inseto gigante, e uma bigorna vermelha em fogo negro. Logo abaixo do escudo uma fita dizia “Blackfeller”, e acima um elmo completo e coroado olhava diretamente para o observador, sombreado de forma amea?adora.

  O cocheiro era estranho, ele se movia uniformemente demais, quase como um rob? seguindo um caminho pré-definido. Ele vestia um terno, e seu rosto estava coberto por uma máscara de bronze, retratando um touro com os chifres serrados.

  Assim que se levantou, ele abriu uma porta na lateral da carruagem com reverência, e de lá saiu élise Blackfeller. Ela usava um vestido vermelho, suas m?os cobertas por luvas brancas que passavam de seus cotovelos, feitas de tecido fino. Um chapéu elegante protegia seu rosto do sol, adornado com plumas brancas que complementavam as luvas com perfei??o.

  Micah olhou pra sua sombra novamente, questionando sua sanidade, mas ela apenas copia seus movimentos como sempre.

  — ? Sorfeu, quem é aquela lá de vermelho? — perguntou Micah, ainda olhando na dire??o da carruagem.

  Dennisorfeu n?o diminuiu o passo.

  — Aquela? — disse, como se estivesse comentando sobre o clima. — élise Blackfeller.

  O nome caiu estranho no ar. Pesado.

  — Blackfeller…? — Micah repetiu, sentindo um gosto metálico na boca.

  Sorfeu deu uma risada curta, sem humor.

  — A própria. Filha da casa mais antiga de Pulmérica. Dinheiro demais, influência demais e… — ele fez um gesto vago com a m?o — …pouca paciência pra gente comum.

  Micah olhou de novo para a mulher de vermelho. Algo nela parecia deslocado, como se o mundo ao redor tivesse sido rearranjado para recebê-la. As pessoas abriam caminho sem perceber que estavam fazendo isso.

  — Ela é… importante? — perguntou.

  — Ela é perigosa. — Sorfeu respondeu sem hesitar. — Quando élise entra num lugar, alguém já perdeu antes mesmo de saber que estava jogando.

  Ele hesitou por um instante, depois acrescentou, num tom mais baixo:

  — Além do mais, é claro como o dia que ela financia rebeldes, mas ninguém tem provas concretas. E mesmo se tivéssemos, n?o é como se pudéssemos fazer muita coisa. Afinal, nosso reino depende da moeda suja deles.

  Micah sentiu um frio no est?mago, mas n?o insistiu. Continuaram andando até que ela desaparecesse naquele prédio monstruoso.

  Alguns minutos se passaram em silêncio, até que Micah franziu a testa.

  — Ei… por que ela n?o tava usando preto nem prata?

  Sorfeu piscou, surpreso.

  — Boa pergunta. Pouca gente nota isso.

  Ele respirou fundo, como quem decide até onde vale a pena explicar.

  — Porque ela n?o é de Luther. — disse por fim.

  — Como assim?

  — Vellanciana. — respondeu. — Nascida em outro país, fora do sistema de castas. Isso significa que ela n?o responde à Serpente Prateada. Tá aqui por acordos antigos… e conveniência mútua.

  A Cidadela surgiu à frente deles, imponente como sempre. Guardas iam e vinham, o pátio interno já estava ocupado por alguns esquadr?es em treino leve.

  — Bom. — disse Sorfeu, estalando o pesco?o. — Já que você sobreviveu ao Axedal, hora de aprender a sobreviver a gente armada.

  Eles pararam numa área lateral do pátio, onde o ch?o era marcado por riscos antigos de treino.

  — Primeira coisa. — Sorfeu come?ou, retirando a jaqueta e ficando apenas com a túnica escura. — Luta n?o é sobre for?a. Nem sobre honra. é sobre posi??o.

  Ele se colocou diante de Micah.

  — Se você controla a distancia, controla o ritmo. Se controla o ritmo, decide quando algo acaba.

  Sorfeu avan?ou de repente.

  Micah reagiu tarde demais, sentindo o punho do bardo atingir seu ombro e empurrá-lo para trás, fazendo soltar um gemido de dor.

  — Morto. — Sorfeu disse, recuando. — De novo. Pé esquerdo à frente, direito atrás, proteja o rosto com os bra?os.

  — Nessa estancia seu peso deve estar nos quadris, coloque seu pé esquerdo um pouco mais à frente. Assim. — Demonstrou ele. Micah o copiou. — Agora seu peso vai estar nos ombros para transferi-lo ao punho e golpear.

  — Tente desviar e me contra-atacar. — Concluiu Sorfeu antes de ataca-lo novamente.

  Micah falhou mais uma vez, levando o soco no rosto.

  Tentaram mais algumas vezes. Micah apanhou mais do que gostaria de admitir, mas come?ou a perceber padr?es: o peso do corpo, o angulo dos pés, o instante exato antes do movimento.

  — N?o pensa. — Sorfeu corrigiu. — Pensar atrasa. Observa e responde.

  Foi quando um soldado surgiu apressado, interrompendo o treino.

  — Tenente Becker-Braun! — disse, ofegante. — O Capit?o-Paladino quer ver vocês. Agora.

  Sorfeu suspirou.

  — Sempre no melhor momento.

  No escritório de vigília, Asáimon e Thonathaniel já estavam lá quando eles entraram. Reblis permanecia atrás da mesa, dedos entrela?ados, express?o fechada.

  — Como vocês já devem saber, o Wanderson e a Rebbeka v?o se casar. — Reblis come?ou. — Com tantos nobres se reunindo em um único local, a possibilidade de um ataque n?o deve ser descartada.

  “Sabendo disso, o Duque requisitou Despertos para a seguran?a da cerim?nia e vigilancia até o fim do casamento, especialmente por conta da inatividade recente do Capuz Escarlate.”

  “Isso significa presen?a constante nos andares superiores da Cidadela. Pelo menos dois de vocês por dia. Revezamento livre, mas responsabilidade total.”

  — Até quando? — perguntou Thona.

  — Até que o último convidado vá embora… ou algo dê errado.

  Antes que alguém respondesse, a porta se abriu de supet?o.

  Três figuras entraram.

  O cheiro veio primeiro.

  Sangue velho, ferro e algo azedo.

  O primeiro à aparecer foi um homem alto, forte, com ombros quase t?o largos quanto a própria entrada. Ele carregava um saco pesado, manchado de sangue, e assim que entrou apoiou uma espada imensa no ch?o, com um design semelhante à uma zweih?nder.

  Uma cicatriz de um corte antigo ladeava sua bochecha esquerda, do canto da boca até quase alcan?ar a têmpora, e seus olhos, cinzas como nuvens carregadas, levavam com si um peso indescritível, sendo difícil dizer se emanavam trauma... ou amea?a.

  Tudo nele parecia milimetricamente medido: Seu cabelo, seu uniforme, seu manto que chegava aos joelhos, suas botas pesadas... A própria poeira parecia temer torná-lo assimétrico. Como se tudo nele seguisse um limite definido.

  A próxima à entrar foi uma mulher loira, levando um len?o laranja no pesco?o e duas adagas no cinto. O cheiro de seu perfume dominou o de sangue velho, deixando um rastro de pimenta-preta esmagada, tabaco seco e casca de laranja queimada. Ela usava uma jaqueta de couro curta por cima do uniforme, luvas sem dedo e cal?as de denim justas, cobertas parcialmente por botas de cano altíssimo.

  Sua energia era o completo oposto da do primeiro homem. Com uma postura relaxada e a m?o na cintura, ela estudava o ambiente com uma curiosidade quase infantil, seus olhos dourados tendo um interesse particular por Micah.

  E a última figura era de uma garota baixinha e retraída, com cabelos caramelo rentes ao ombro. Ela era quem chamava menos aten??o, utilizando um uniforme simples e brincos sutis. Suas m?os se seguravam atrás do corpo, n?o com confian?a, mas como alguém que n?o sabe onde meter os próprios bra?os. Seus olhos eram cinza-claros, quase translúcidos, evitando contato visual prolongado.

  O homem alto retirou algo do saco e deixou cair sobre o ch?o a cabe?a deformada de um Desalmado raposa. Os olhos ainda abertos, a mandíbula torta, decapitada com um corpo limpo.

  — Estrada da Fartura. — disse a loira, sorrindo de lado. — Caravanas n?o v?o mais sumir por lá.

  Reblis fechou os olhos por um segundo.

  — ótimo. Péssimo timing.

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  Ele ent?o olhou para Micah.

  — Micah. — disse, gestuando para os três. — Esse é o resto do seu pelot?o.

  — Bartkuma.

  O homem alto inclinou a cabe?a em silêncio.

  — Felipa.

  A garota tímida acenou de leve, sem sorrir.

  — Lysandre.

  A loira foi a única que se aproximou, analisando o ruivo de cima a baixo.

  Por um único segundo Micah viu um movimento estranho em seus olhos, como o trocar de lentes de uma camera.

  — Hm. — murmurou. — Ent?o você é o Migrador que morreu duas vezes.

  Micah piscou.

  — Eu… quê?

  Ela sorriu, pondo a m?o sobre o ombro dele.

  — Relaxa. Depois eu te explico. Ou n?o. Me chame de Lysa.

  Sorfeu soltou uma risada curta.

  — Bem-vindo ao grupo, Micah. — disse. — Agora só da pra piorar.

  — Bom. — disse, como quem chega a uma conclus?o óbvia. — Já que o pelot?o tá oficialmente completo… acho que a gente merece uma recep??o decente.

  Reblis ergueu uma sobrancelha.

  — Becker-Braun—

  — Uma festa de boas-vindas. — Sorfeu interrompeu, rápido demais para parecer inocente. — Nada demais. Uma taverna, uma bebida, todo mundo se conhece fora do ambiente de trabalho. Moral do grupo, senhor. O toque de recolher nem deixa agente ir depois do expediente.

  Lysandre abriu um sorriso largo, aprovando imediatamente.

  — Finalmente alguém com bom senso nessa baga?a!

  Bartkuma n?o reagiu. Felipa pareceu considerar a ideia como quem avalia se um telhado vai cair ou n?o.

  Reblis suspirou, passando a m?o pelo rosto.

  — Uma hora. — disse. — Depois disso, quero todos descansados. Temos escala amanh?.

  Sorfeu sorriu como quem acaba de vencer uma batalha diplomática.

  — Uma hora. Prometo. — já se virando para sair. — Vamos antes que eu mude de ideia e vire um soldado exemplar.

  O grupo se dispersou pelos corredores da Cidadela, descendo em dire??o aos níveis inferiores. O clima havia mudado: menos peso, mais barulho de passos, comentários soltos, risadas contidas.

  Um soldado azarado passou em frente ao escritório.

  — Ei, você. — Chamou Reblis. — Da pra achar alguém pra tirar isso daqui?

  Ele apontou pra cabe?a monstruosa no ch?o. O coitado quase pulou de susto.

  — Uhh... Sim, senhor.

  — Ent?o… — Lysandre come?ou, andando de costas por alguns segundos para olhar Micah. — você realmente morreu numa estaca?

  — Prefiro chamar de… experiência educativa. — respondeu sarcasticamente.

  — Adoro sobreviventes ir?nicos. — ela piscou. — Sabe, se você tivesse um pouco mais de músculo, você até que seria gatinho.

  Micah corou.

  — O-o que?!

  Lysa deu uma risadinha curta.

  — N?o sabe receber elogios é? Normalmente agradecemos. — O tom dela abaixou. — Mas, é estranho... Você n?o tem nenhuma cicatriz né? Eu nunca vi uma Imagem assim. Até mesmo os curandeiros mais habilidosos deixam algum tipo de vestígio.

  — Eu n?o sei explicar. Eu só morri, e acordei debaixo da terra no mesmo instante. — Ele olhou pra suas m?os, lembrando da sua pele com aspecto de argila, que agora já havia voltado ao normal.

  Felipa caminhava alguns passos atrás, m?os escondidas nas luvas claras. Seu olhar estava fixo no ch?o, contando mentalmente o ritmo dos próprios passos.

  Foi quando Micah percebeu.

  Alguém vinha descendo dos andares superiores.

  O fluxo de soldados normalmente era previsível: quem estava destacado nos port?es n?o aparecia ali naquele horário. E, ainda assim—

  — Gunther? — Sorfeu franziu a testa.

  O homem vinha com o elmo sob o bra?o, uniforme ainda impecável demais para alguém que deveria estar no Port?o Sul. Seu passo era firme, mas havia algo tenso nos ombros, como se estivesse carregando um pensamento pesado demais.

  — Irm?o. — cumprimentou, seco. — Reblis já te soltou?

  — Milagre raro. — Sorfeu respondeu. — N?o era pra você estar—

  — Eu sei onde eu deveria estar. — Gunther cortou, rápido demais.

  Micah sentiu o ar ficar estranho por um segundo. N?o hostil. Desalinhado.

  — Tá tudo bem? — Sorfeu perguntou, agora sério.

  Gunther hesitou. Um microssegundo. O suficiente.

  — Vi uma movimenta??o estranha no pátio interno. — disse. — Nobres chegando antes do previsto. Alguns… sem registro claro.

  — Antes do casamento? — Asáimon comentou, atrás. — Isso é incomum.

  — é. — Gunther assentiu. — Resolvi informar pessoalmente.

  Sorfeu o encarou por mais um segundo do que o necessário.

  Uma semente foi plantada.

  Mas n?o teve tempo de germinar.

  Porque Gunther parou de falar.

  Literalmente.

  Seu olhar havia deslizado — primeiro casual, depois fixo — até Felipa.

  Ela estava alguns passos atrás, conversando baixo com Lysandre, quando sentiu o peso do olhar. Levantou a cabe?a devagar.

  Os olhos dos dois se encontraram.

  Gunther piscou, como se tivesse sido puxado de um pensamento distante para o presente.

  — …Oi. — ele disse, completamente fora do tom militar.

  Lysandre ergueu uma sobrancelha, divertida.

  — Olha só. — murmurou. — Isso ficou interessante rápido.

  Felipa ajustou as luvas, nervosa.

  — Oi.

  Silêncio.

  Sorfeu alternou o olhar entre os dois, sorrindo de canto.

  — Vocês se conhecem?

  — Um pouco. — Gunther respondeu, rápido demais outra vez. — Quer dizer— n?o muito.

  Felipa assentiu.

  — Ele… me convidou pra sair. — disse, quase num sussurro.

  O bardo arregalou levemente os olhos.

  — Logo você convidou alguém pra sair? — Perguntou, teatralmente.

  Gunther pigarreou.

  — Isso n?o vem ao caso.

  — Claro que vem. — Sorfeu abriu os bra?os. — Estamos indo beber. Por que n?o vem com agente, maninho?

  Felipa pareceu querer desaparecer dentro do próprio uniforme.

  — Eu n?o—

  — Uma hora. — Sorfeu repetiu, apontando para ela. — Prometo que ninguém vai fazer vocês beberem até apagar.

  — Eu nunca bebo até apagar. — Ela respondeu, defensiva.

  — Exato. — Lysandre sorriu. — A gente vai cuidar disso.

  Felipa lan?ou um olhar mortal para ela.

  Gunther suspirou.

  — Eu deveria—

  — O Port?o Sul ainda tá lá. — Sorfeu bateu no ombro dele. — E o mundo n?o acaba se você ficar uma hora fora dele.

  Gunther hesitou. Olhou uma última vez na dire??o de onde vinha. Depois, para Felipa.

  — Uma hora. — disse.

  E, assim, o assunto morreu.

  Ou, pelo menos, foi empurrado para debaixo do tapete certo.

  A taverna escolhida era baixa, quente e barulhenta demais para qualquer conversa profunda sobreviver. O cheiro de gordura, cevada e fuma?a envolveu o grupo no instante em que entraram.

  Sorfeu ergueu a m?o.

  — Rodada por minha conta. — declarou. — Pela chegada do Micah, pelo retorno do pelot?o inteiro, pela estrada limpa—

  — E porque você só precisava de uma desculpa. — Lysandre completou.

  — Principalmente por isso.

  Risadas.

  Micah se sentou, sentindo algo raro: normalidade.

  Felipa escolheu um lugar na ponta da mesa. Gunther ao lado dela. Nenhum dos dois falou por alguns segundos.

  Até que ela murmurou:

  — Você mentiu.

  — Eu sei.

  — Porquê?

  — N?o posso falar aqui. é muito perigoso.

  Felipa engoliu seco.

  Ela abriu a boca para falar, mas foi interrompida por uma batida forte no balc?o. Sorfeu brindou alto.

  — Saúde! — gritou.

  Copos se chocaram.

  O barulho ecoou como um trov?o doméstico, e por alguns instantes tudo foi espuma, riso e madeira rangendo sob o peso de corpos cansados. Sorfeu bebeu de uma vez, limpou a boca com as costas da m?o e, sem dizer nada, subiu em um banco vazio perto da parede.

  Alguns gemidos de protesto surgiram.

  — Ah, n?o… — alguém murmurou.

  — Ele vai fazer isso mesmo? — Lysandre arqueou uma sobrancelha, já sorrindo.

  Sorfeu ignorou. Tirou o instrumento das costas — velho, remendado, com marcas de estrada demais para ainda soar t?o bem — e girou uma das cravelhas com cuidado exagerado.

  — Aprendi essa com um velhote da minha vila natal. — Anunciou. — Um sujeito feio, sério demais e que odiava quando eu mudava a letra.

  — Ent?o muda tudo — alguém gritou.

  Sorfeu sorriu torto.

  As primeiras notas cortaram o barulho da taverna como uma lamina quente. N?o eram delicadas. Eram firmes, repetitivas, feitas para serem acompanhadas com o pé batendo no ch?o.

  Aos poucos, as conversas morreram.

  Até Micah percebeu — o som n?o pedia aten??o, tomava.

  Sorfeu come?ou à cantar:

  “Era uma vez,

  Pragas que infestavam os pulm?es.

  Ou?am vocês,

  Vou cantar de um homem e um sonho.

  Moldado em dor e chama,

  Nascido pra p?r fim à lama,

  Fez da alma sua arma —

  E da guerra, sua cama.”

  “Veio do ch?o, do sangue e suor,

  O filho do homem, o senhor do pior.

  Marchou com a raiva no punho fechado,

  E com ela uniu cada vilarejo e estado.”

  “E os insetos voavam, com asas de ouro,

  Chamavam-nos servos, tomavam nosso tesouro.

  Mas Gilgade?o ergueu seu olhar,

  E fez cada rei se ajoelhar.”

  “Todos cantem, batam o tambor!”

  Punhos bateram em mesas. Canecas marcaram o ritmo. Vozes desafinadas se juntaram sem vergonha alguma. Até mesmo Bartkuma e Asáimon batiam os pés ao ritmo.

  “Pelo homem que quebrou (pelo rei que quebrou o terror!)

  Gilgade?o, espada da ra?a humana,

  Fez da liberdade a nossa heran?a!”

  “N?o pediu bên??o, n?o fez ora??o,

  Foi escolhido pela maior convic??o.

  E onde os elfos construíam palácios,

  Ele plantou corpos e ergueu seu próprio estado.”

  “Ele n?o foi rei pela sua sorte —

  Foi rei por decreto, suor e morte.

  E quando enfim tombou o rei alado,

  Pulmérica inteira gritou seu legado.”

  Lysa puxou o gar?om em uma dan?a desengon?ada, entusiasmada demais para estar sóbria — ou para se importar com qualquer técnica.

  Felipa n?o cantou.

  Observava Sorfeu com o copo parado entre as m?os, os lábios cerrados, sentindo o peso da mentira de Gunther vibrar no peito a cada verso sobre uni?o e verdade conquistada no sangue.

  Gunther, ao lado dela, evitava seu olhar.

  Micah cantou baixo. N?o pelas palavras — mas pela sensa??o estranha de pertencer àquele coro, mesmo sabendo que histórias assim sempre escondiam algo que o refr?o n?o dizia.

  “Todos cantem, batam o tambor,

  Pelo homem que quebrou (pelo rei que quebrou o terror!)

  Gilgade?o, espada da ra?a humana,

  Fez da liberdade a nossa heran?a!”

  “O Demiurgo o viu, e o escolheu.

  Pois o sangue que corre, é o que devolve.

  E se a luz nasce de dentro da dor,

  Ent?o foi ele o nosso portador.”

  “Os elfos se foram, levados ao mar.

  Mas o nome dele, ninguém vai apagar.

  Porque enquanto houver fogo, guerra e clamor,

  Ecoará o nome do libertador:”

  “Gilgade?o...

  Filho do barro, a?o e paix?o,

  Que matou os cupins pra dar-nos o ch?o.

  E fez da história sua can??o.”

  Quando Sorfeu chegou ao final, a última nota se estendeu longa demais, como se o instrumento relutasse em deixar a can??o morrer.

  Por um segundo, houve silêncio.

  Ent?o a taverna explodiu.

  Gritos, aplausos, pedidos por outra. Sorfeu fez uma reverência exagerada, quase caiu do banco e riu como se tivesse acabado de contar a melhor piada do mundo.

  Mas sob o riso, sob o mito do primeiro rei e da liberdade conquistada, algo come?ava a se mover.

  Rumores, como can??es, também precisavam apenas de um primeiro ouvido disposto a escutar.

  E naquela tarde,

  alguém já tinha come?ado a contar a vers?o errada da história.

  ...

  Passos de salto alto ecoavam pelos amplos corredores do Mercado Ducal.

  No ponto mais alto do prédio se encontrava élise, em frente à um grande port?o de madeira escura, guardado por dois homens levando armaduras pesadas, que permitiram sua entrada sem hesitar.

  Ela entrou, mas seu mordomo mascarado permaneceu no corredor.

  A sala era ampla e luxuosa, com três grandes vitrais que filtravam a luz solar intensa de fora. O lado adjacente dispunha de uma mesa repleta de aperitivos e iguarias, temperados com especiarias que apenas a elite poderia comprar. Estátuas raras e plantas exóticas decoravam os cantos livres.

  Uma das paredes esbanjava uma pintura enorme demais para o sal?o que a abrigava. As bordas já estavam escurecidas, como se o próprio tempo tivesse tentado queimá-la e desistido no meio do processo.

  Ela retrata uma cidade no instante exato de sua queda — n?o antes, n?o depois.

  A cidade ocupa o centro da tela como uma ferida aberta no mundo. Torres de mármore branco e ouro est?o partidas ao meio, inclinadas em angulos impossíveis, como ossos quebrados atravessando a carne da paisagem. Pontes desabam em silêncio congelado, ruas se dobram sobre si mesmas, e muralhas — outrora símbolos de ordem e domínio humano — agora eram destruídas pelo próprios seres que protegiam.

  O céu é o elemento mais perturbador.

  N?o há sol. N?o há lua.

  Há um rasgo.

  As nuvens giram em espiral em torno de uma abertura luminosa e doentia, como se o firmamento tivesse sido perfurado de dentro para fora. Dessa fenda escorre uma luz esverdeada e dourada ao mesmo tempo — bela demais para ser natural, agressiva demais para ser divina. A luz n?o ilumina: ela denuncia. Cada sombra projetada pela cidade aponta para dire??es diferentes, como se a própria realidade tivesse perdido consenso.

  No alto, quase imperceptíveis à primeira vista, formas colossais observam a cena. N?o s?o totalmente definidas: silhuetas de membros longos demais, rostos incompletos, coroas quebradas flutuando no vazio. Arcontes — antes mesmo de serem chamados assim. Eles n?o atacam. N?o precisam. A queda da cidade parece acontecer por retirada, n?o por invas?o. Como se algo essencial tivesse sido simplesmente desligado.

  No primeiro plano, o horror é humano.

  Pessoas est?o pintadas em número excessivo, sobrepostas, esmagadas umas contra as outras. N?o há heróis. N?o há pose épica. Homens, mulheres e crian?as correm, caem, se agarram a estátua quebrada do antigo imperador, imploram a deuses que já n?o olham de volta. Alguns têm o rosto voltado para o céu — e esses s?o os mais aterradores — pois suas express?es n?o s?o de medo, mas de compreens?o tardia.

  Entre os corpos, símbolos do Império aparecem profanados: estandartes queimando, códices rasgados, selos reais partidos ao meio.

  No canto inferior direito, quase escondido, há um detalhe que poucos notam:

  Um sacerdote imperial ajoelhado, ainda segurando um símbolo sagrado humano. A tinta ao redor dele é mais espessa, quase viscosa. Seu rosto n?o está em desespero. Está vazio. Como se tivesse entendido que o erro n?o foi perder, mas acreditar que o Império jamais poderia cair.

  N?o há assinatura do artista.

  Mas no verso da moldura, estava o título:

  “A Queda de Gomorra”

  Ao seu lado duas mulheres usando mascaras de vaca tocavam uma sonata melódica através de um piano e um violino. E à frente da obra estava uma poltrona, onde alguém observava o quadro enquanto degustava de um charuto e um Bourbon.

  élise caminhou até a poltrona, ajoelhando-se atrás dela.

  — Estou aqui, Pai.

  O homem levantou sua m?o, a música cessou na mesma hora.

  Ele deu mais uma tragada de seu charuto, permanecendo em silêncio.

  — O plano já está em a??o. — continuou ela. — Eu posso garantir ao senhor que a cidade logo será nossa. E isso será feito sem mobilizarmos um único soldado sequer.

  Silêncio.

  — é uma bela obra. — Declarou ele. Sua voz era firme, t?o grave que beirava o inumano.

  "E assim como Gomorra, este reino queimará. Das cinzas dele surgiremos como reis, e cada um dos que sobrarem nos serviram."

  “Nossa família governará o mundo sem contesta??o.”

  “Continue assim, minha filha, e você estará pronta para tomar o posto de Matriarca.”

  — Obrigada, pai. N?o o decepcionarei. — Ela abaixou a cabe?a levemente, antes de se levantar e sair.

  Assim a reuni?o familiar terminou.

  Em promessas, dívidas, em conspira??es.

  Como a família Blackfeller sempre operou.

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