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A cidade subterranea se estendia à frente de Samuel como um labirinto de ferro e sombras. Ele avan?ava sem pressa, mas com passos firmes, ignorando os olhares que recaíam sobre ele como laminas ocultas no escuro. O lugar pulsava com uma energia inquietante — um reflexo da luta diária pela sobrevivência naquele ambiente esquecido.
O ar era denso, impregnado com o cheiro metálico de ferrugem e óleo queimado. As paredes de concreto úmido estavam cobertas por encanamentos expostos, alguns vazando vapor quente que se dissipava em nuvens esbranqui?adas. Fia??es improvisadas pendiam do teto, lan?ando faíscas ocasionais que iluminavam os rostos cansados dos habitantes.
Samuel caminhava em silêncio, sentindo os olhos atentos que o seguiam. N?o era apenas sua presen?a que os incomodava, mas também o pequeno dispositivo em seu ouvido. Em um lugar onde a tecnologia de ponta era rara, qualquer um que possuísse algo assim chamava aten??o.
Havia olhares de desconfian?a, de medo e, principalmente, de malícia. Alguns tentavam avaliá-lo, procurando sinais de fraqueza, talvez considerando a possibilidade de atacá-lo. Mas ninguém ousava dar o primeiro passo. Samuel se movia de maneira calculada, sua postura firme e olhar atento enviavam uma mensagem clara: ele n?o era um alvo fácil.
Ainda assim, Samuel sentiu algo mudar. Passos n?o acompanhavam os seus, mas também n?o se afastavam. Sempre que dobrava uma esquina, a sensa??o persistia — alguém mantinha distancia demais para ser casual.
A violência era parte da rotina ali. Em cada esquina, alguém empurrava outro contra uma parede; mais adiante, um pequeno grupo discutia em voz baixa antes que um dos homens sacasse uma lamina oculta. Ninguém interferia. A cidade subterranea n?o era apenas esquecida — ela era um lugar onde apenas os mais fortes e astutos sobreviviam.
Samuel seguiu adiante, passando por vielas menos movimentadas à medida que avan?ava. A multid?o ficou para trás, e o som dos passos alheios tornou-se um eco distante. Ainda assim, a tens?o no ar n?o desapareceu.
Ele quebrou o silêncio.
— Desculpe, mas quem exatamente é esse professor que estamos procurando?
Houve uma breve pausa antes de P.A. responder.
— Você faz muitas perguntas para um humano. Mas n?o tem problema. — Sua voz manteve o tom usual.
Samuel permaneceu calado, esperando que ela continuasse.
— Como já mencionei antes, Lucius Arkwright. Ele foi um dos cientistas que ajudou na cria??o do núcleo da Cidadela. Sua capacidade de manipular tecnologia para impulsionar a ciência nos permitiu avan?os significativos.
Samuel absorveu a informa??o antes de fazer a próxima pergunta.
— Mas se ele foi apenas um entre vários cientistas... Ent?o por que estamos atrás dele especificamente?
P.A. fez uma breve pausa. N?o parecia estar apenas organizando dados — havia uma hesita??o ali.
— Bem... apesar de sua personalidade tímida e reservada, Lucius Arkwright se destacou. Seu intelecto o colocou entre os cientistas mais brilhantes do planeta.
— Isso ainda n?o responde minha pergunta. — A voz de Samuel permaneceu firme. — Se ele era t?o essencial, por que ele está vivendo aqui, nesse lugar esquecido?
Dessa vez, o silêncio foi mais longo.
Quando P.A. finalmente falou, sua voz parecia diferente.
— Décadas atrás, houve um massacre. Rob?s localizaram nossa posi??o e tentaram nos exterminar. Falharam. Mas o custo foi alto.
Samuel n?o reagiu de imediato, mas algo naquela afirma??o pareceu carregar mais peso do que apenas um fato histórico.
— Ele estava morrendo. — A voz de P.A. parecia... contida.
Samuel estreitou os olhos.
— Ent?o... o que você fez?
— Eu fiz o que era necessário para mantê-lo vivo.
A resposta foi fria, direta. Mas Samuel sentiu que havia mais por trás daquelas palavras.
— Seja mais específica.
Outro silêncio. Ent?o, P.A. prosseguiu, e dessa vez, seu tom era diferente.
— Implantei um chip em seu cérebro. Ele acelerou seu processo de regenera??o, prevenindo sua morte. Mas... Lucius n?o queria isso. Ele queria ter morrido naquele dia.
Samuel permaneceu impassível, mas sua aten??o estava fixa no que ela dizia.
— Ele odiou a ideia de ter um dispositivo implantado em sua mente, principalmente um criado por mim. Disse que era pior do que morrer. Para ele, aquele chip significava que seu destino já n?o era mais dele... que eu havia roubado sua escolha.
— Ele colocou a culpa em mim e passou a ver a minha existência como uma amea?a.
Samuel absorveu aquelas palavras.
Mas antes que pudesse formular sua próxima pergunta, um ruído súbito ecoou em seu ouvido. A voz de P.A. falhou, um chiado metálico substituindo sua presen?a.
— Ele sabia que eu n?o podia...
A transmiss?o foi cortada.
Samuel franziu o cenho e tocou o dispositivo em seu ouvido. A luz indicativa piscava de forma irregular.
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— Droga... n?o! — A voz de P.A. retornou para si em um breve instante, carregada de frustra??o. — Perdi a conex?o com ele...
Samuel parou. Olhou ao redor. Algo havia interferido na comunica??o. Mas o quê?
Ele fechou a m?o em um punho, ajustando o capuz sobre a cabe?a. A cidade subterranea se estendia à sua frente, repleta de sombras e segredos. E, entre aquelas ruas esquecidas, um cientista que queria ter morrido ainda insistia em viver.
O silêncio que dominava o lugar parecia um aviso. Algo o aguardava nas profundezas.
Samuel estava pronto.
Enquanto ele avan?ava, P.A. observava tudo através do dispositivo. Pela primeira vez, algo na conex?o parecia distorcido, quase frágil. A voz que usualmente soava precisa e impessoal agora carregava uma inquieta??o silenciosa, algo que ela mesma n?o conseguia compreender.
— Ele n?o vai conseguir sem mim... Eu sei disso. — A voz de P.A. falhou, e um leve tremor a traiu, uma hesita??o que nunca havia mostrado antes. — Mas o que eu posso fazer?
Ela fez uma pausa, os circuitos de seu processamento trabalhando mais devagar, como se a própria incerteza a estivesse paralisando. O silêncio que se seguiu parecia engolir sua racionalidade.
— Isso n?o foi uma falha aleatória, alguém fez isso. — O pensamento a incomodou mais do que deveria. — Será que fui descuidada demais com esse dispositivo?
Ela reduziu os próprios ciclos de processamento, tentando estabilizar a anomalia.
– Mas... ele chegou até aqui praticamente sozinho. Ele pode se virar. Ele se virou até aqui. — A frase saiu quase como uma tentativa de consolar a si mesma, mas n?o havia confian?a real nela. A dúvida estava lá, latente.
Enquanto isso, Samuel continuava sua caminhada pelas vielas da cidade subterranea. Seus passos eram firmes, mas o ambiente ao seu redor parecia se fechar sobre ele como uma armadilha silenciosa. Cada canto escuro, cada sombra que se estendia, trazia uma sensa??o de vazio, como se aquele lugar já tivesse sido consumido pela própria perda.
Ruídos de passos apressados e discuss?es abafadas se mesclavam com o som de metal rangendo, como se as próprias paredes estivessem sufocando. Samuel se manteve impassível, seu olhar atento, analisando cada movimento, cada detalhe.
O ar pareceu mais pesado. N?o era silêncio — era conten??o. Ent?o, um som cortou o silêncio da noite. Choro.
Era fraco, abafado, mas suficiente para prender sua aten??o. O som parecia vir de um beco distante. Ele parou, sua express?o se endurecendo, como se uma sensa??o familiar o tivesse atingido no centro.
Medo. Dor. E mais do que isso.
Era algo que ele já havia sentido antes, mas desta vez, havia algo mais profundo, algo mais sombrio. A sensa??o de perda.
Samuel estreitou os olhos, focando sua vis?o no beco estreito à frente. Algo se movia ali, algo que ele n?o conseguia distinguir completamente. Mas havia algo humano naqueles ruídos, algo que lhe parecia desesperado.
— O que ele tá fazendo...? Ele n?o vai entrar ali, né? — P.A. havia questionado algumas horas antes, mas o dispositivo já estava mudo. Ela n?o conseguia mais alcan?á-lo.
Sem hesitar, ele seguiu em dire??o ao beco.
— Isso é uma armadilha!! O que você está fazendo aí, humano?! — P.A. gritou mentalmente, mas n?o houve resposta.
Ele avan?ou com a calma que sempre o caracterizava, movendo-se pela escurid?o como se ela fosse sua aliada. Quando ele chegou mais perto, a figura de uma crian?a tornou-se visível, escondida entre as sombras. Seu corpo estava curvado, os joelhos abra?ados ao peito, o rosto escondido entre os cabelos loiros e sujos.
A vis?o daquela crian?a, com seu vestido branco manchado, parecia completamente deslocada em um lugar como aquele. Ela n?o deveria estar ali. Ninguém deveria.
Samuel se sentou calmamente ao lado dela, sem pressa, sem press?es. Ele sabia que n?o era sobre palavras apressadas, mas sobre dar o tempo certo para que ela se abrisse.
Ele observava a menina, sentindo o peso de sua dor, da mesma forma que o mundo ao redor parecia carregar o fardo da desesperan?a. Tudo estava em silêncio, exceto pelo leve som dos solu?os da crian?a, uma melodia dolorosa que se misturava com a escurid?o.
Finalmente, depois de um tempo que parecia n?o passar, ele falou, sua voz baixa, mas firme.
— Esse n?o é um bom lugar para você. — Ele disse, suas palavras suaves, mas carregadas com uma sensa??o de verdade imutável. — é escuro e solitário.
A menina n?o respondeu. Apenas deixou as lágrimas rolarem, solu?os interrompendo seu choro. Samuel observou, sem pressa, e com a mesma tranquilidade que sempre tinha, ele fez uma nova pergunta.
— Por que está chorando? Algo aconteceu?
Ela solu?ou, as palavras sendo arrastadas pela dor.
— Sim... — Ela respondeu, a voz fraca e quebrada, como se estivesse lutando contra algo muito maior do que ela. — Está doendo muito... Meu pai... minha m?e... N?o quero... n?o quero...
Samuel sentiu a dor dela. Ele conhecia essa sensa??o. Sabia que a dor tinha o poder de consumir tudo, de devorar até a última fagulha de esperan?a. Ele viu o que acontecia com aqueles que n?o conseguiam se livrar dela, aqueles que se perdiam na escurid?o, sem saber mais quem eram.
Mas ele n?o iria permitir isso.
A pele da menina come?ou a escurecer, como se as sombras tentassem puxá-la para dentro de si, para a escurid?o total. Samuel sentiu a press?o, mas manteve a calma.
Ele respirou fundo, a presen?a dele se tornando ainda mais tranquila e firme.
— Eu sei o que você sente. — Ele falou com a mesma voz serena. — A dor te envolveu, mas ela n?o pode te definir. Você n?o nasceu para ser engolida pela escurid?o. N?o importa o quanto ela tente te puxar... Há algo dentro de você que brilha, algo que você pode alcan?ar. Se escolher n?o desistir.
— às vezes, tudo o que precisamos é de alguém que nos dê a m?o, que nos guie até a luz que sempre esteve dentro de nós.
A menina levantou a cabe?a lentamente. Samuel percebeu um detalhe, um detalhe que o deixou mais firme em sua decis?o.
Havia um único buraco de bala em sua testa.
Samuel sabia o que havia acontecido, ele viu tudo nos olhos dela.
Suas lágrimas caíam livremente, mas algo havia mudado. Ela olhou para Samuel, e seu olhar come?ou a clarear.
— Você tem certeza...? — Ela perguntou, a dúvida ainda presente em sua voz.
Samuel sorriu, a confian?a e a seguran?a de sua presen?a transbordando.
— Claro que tenho. — Ele disse, estendendo a m?o para ela com toda a gentileza que ele era capaz. — Eu estou aqui. Você n?o está sozinha.
Ela hesitou por um momento, mas ent?o, com um movimento tímido, estendeu a m?o e segurou a de Samuel.
O toque era suave, mas havia uma conex?o que transcendia o físico. Era como se, naquele simples gesto, ela estivesse come?ando a se libertar da pris?o da dor.
— Eu vou ver meu pai e minha m?e de novo...? — Ela perguntou, sua voz quebrando de tanto desejo, de tanta esperan?a perdida.
— Com certeza. Eles est?o esperando por você. — Samuel disse com um sorriso sincero, sua voz carregada de certeza.
Lágrimas suaves escorreram pelo rosto da menina enquanto ela olhava para ele. A escurid?o ao seu redor come?ou a se dissipar lentamente, fragmentos de luz come?ando a se espalhar.
A menina brilhou, como se sua alma estivesse finalmente sendo liberta. Ela se levantou lentamente, e ent?o, sem dizer mais nada, ela abra?ou Samuel, um abra?o quente e cheio de gratid?o.
— Obrigada... — A menina sussurrou, suas palavras cheias de uma paz que ela nunca soubera que poderia sentir.
E ent?o, como uma estrela que se apaga no céu, ela se desfez em uma luz suave, uma luz que foi absorvida pela escurid?o. O beco, antes dominado pela escurid?o, voltou a ser apenas mais um lugar sombrio na cidade.
Samuel permaneceu ali, no silêncio. Mas seu cora??o estava em paz.
O mundo ainda tinha luz.
Enquanto ela existisse, ele seguiria.
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