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Capítulo 8: O Cordeiro e o Lagostim

  Quando entrei no quarto eu imediatamente senti a diferen?a entre ele e o corredor.

  Ele era pequeno. Apertado. Mais aquecido que o lado de fora, claro, porém, era abafado e úmido, como uma estufa abandonada, impregnado com o cheiro de mofo e suor. O ch?o de azulejos marrons era gorduroso, sendo desagradável andar sobre eles com os pés descal?os. Manchas escuras escondiam a cor bege das paredes, algumas partes da pintura estavam até descascadas, revelando um reboco mal feito por baixo.

  A única fonte de ilumina??o do c?modo era uma janela com persianas quebradas. Por ela, podia-se ver o lado de fora, que estava coberto por uma neblina t?o densa que parecia possível cortá-la com uma faca, à n?o ser por um eclipse, que repelia a névoa ao seu redor como óleo sobre água.

  O quarto estava mobiliado apenas com: uma cama de solteiro, uma mesa de plástico, uma cadeira — que parecia pertencer mais à uma mesa de jantar do que um dormitório — um criado-mudo, um abajur e um espelho empoeirado, rachado em exatamente três grandes lascas.

  Nada naquele quarto combinava. Tudo parecia um lugar que já tinha desistido de ser lar.

  E ainda assim… havia algo dolorosamente familiar ali.

  Um eco pálido da minha infancia — só que mutilado.

  Sem cor.

  Sem esperan?a.

  Como se alguém tivesse arrancado a inocência do lugar.

  Assim como eu.

  Quando entrei, pensei que estava sozinho lá, até que percebi algo no limite da minha vis?o. Um movimento estranho num canto do quarto, como uma respira??o leve. Cerrei meus olhos, tentando entender o que era o borr?o.

  A minha vis?o ficou mais nítida, até que percebi, o que eu antes achava ser apenas uma sombra, se revelou um animal pequeno, n?o muito maior que um gato, dormindo tranquilamente. Mas t?o preto que era difícil distinguir onde a escurid?o terminava, e onde o bicho come?ava.

  Uma silhueta sem dono.

  O corpo era de cordeiro, com o diferencial gritante de que o cranio carregava n?o dois — mas sim oito chifres, curvados como raízes secas. Quando dei um passo, um olho se abriu.

  Branco como neve.

  Depois outro.

  E outro.

  E mais um.

  Com apenas um lado de seu rosto virado à mim, ele me olhava com quatro olhos.

  Ele n?o tinha pupilas, mas eu sabia que encarava os meus olhos, observando minha alma nua e crua da mesma forma que uma coruja observa a presa. Bem como, paradoxalmente, um cordeiro encurralado olharia para o lobo prestes à devorá-lo.

  Eu tentei olhar pra longe daquele escrutínio ambíguo que me dava arrepios, mas o contato visual permanecia fixo. Inabalável. Como se meus globos oculares simplesmente n?o pertencessem mais à mim, mas estivessem nas m?os — ou melhor, cascos — desse ser.

  Ent?o ele girou o rosto inteiro para mim, lento como um eclipse.

  — Quem… o que é você…?

  Um quinto olho se abriu.

  Eu recuei.

  O sexto.

  A porta atrás de mim tinha sumido.

  O sétimo.

  — P-PARA DE ME OLHAR!

  E quando o último come?ou a se levantar…

  Micah acordou arfando, lágrimas queimando os cantos dos olhos.

  Pela primeira vez na vida, ele havia sido visto.

  De verdade.

  Sem expectativas. Sem ilus?es. Sem misericórdia.

  E n?o conseguia suportar isso.

  A porta abriu sem aviso, inundando o quarto com luz dolorosa. Ele piscou rápido, cego, enquanto ouvia passos pesados e o tilintar metálico de placas de a?o.

  — Ah. Que surpresa. Você acordou — Disse Ezra, com seu tom casual de sempre.

  Alguém soltou as tiras de couro que prendiam seus bra?os e pernas. Assim que tentaram erguê-lo, Micah tentou falar — mas só conseguiu tossir. Sua garganta estava seca como madeira queimada.

  — Beba.

  Quando seus olhos finalmente focaram, Ezra estava estendendo um cantil. Micah bebeu tudo em um único gole, água escorrendo pelo canto da boca como se ele fosse terra rachada recebendo chuva após meses de seca.

  Após o último gole, Ezra se inclinou até ficar na altura de seus olhos.

  — Ent?o, Micah. Qual o nome dela?

  Micah franziu o cenho.

  — H?… Nome de quem?

  — Da sua Imagem, claro. Vocês conversaram no núcleo, n?o foi?

  — Aquele bicho? Ele só me encarou. N?o disse nada. — Micah deu de ombros

  Ezra agarrou o queixo de Micah, obrigando-o a olhar nos seus olhos.

  — Micah, todos que acordam após três dias se tornam Despertos. E todos os Despertos sabem o nome de suas Imagens. N?o minta para mim.

  — N?o t? mentindo! Eu nem sei se aquela coisa falava!

  Um lampejo de irrita??o cruzou o rosto de Ezra — logo substituído por seu sorriso habitual, meio debochado, meio entediado.

  — Pois bem. N?o importa. O experimento continuará. Sua reserva cármica é tudo que preciso, e você me mostrou ela no primeiro dia — disse, ajeitando a meia-capa.

  Ele ainda acrescentou, quase rindo:

  — Seu Karma negativo é absurdamente grande, Micah. Coisa de assassino em série. N?o sei o que andou fazendo na sua vida passada, mas parabéns pelo sofrimento causado.

  Ezra bagun?ou seu cabelo como quem elogia um filho aplicado. Depois virou e saiu, seguido pelos guarda-costas — carregando Micah com eles.

  A sala levava à um corredor longo, mas estreito, que abrigava múltiplas intersec??es, parecendo um labirinto, cheio de curvas incoerentes e corredores que n?o levavam à lugar algum. Do ch?o ao teto o corredor era feito unicamente de pedra e n?o havia janela alguma, sendo iluminado somente por tochas. Estavam no subterraneo.

  O local possuía uma arquitetura perturbadora. Caveiras encaixadas como tijolos. Costelas formando arcos. Mandíbulas servindo de molduras.

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  Era como se Micah tivesse voltado à época que invadia dungeons junto de seus amigos do fundamental.

  — Que decora??o... de bom gosto a sua, Ezra. — Comentou Micah ironicamente enquanto observava a excentricidade das paredes.

  — Hm? Ah, isso. — Ezra apontou displicentemente. — S?o reais.

  Micah parou.

  — Oi...?

  O alquimista revirou os olhos, soltando um pequeno suspiro antes de repetir com impaciência:

  — S?o reais. Os ossos s?o reais.

  Ent?o enfiou os dedos nas órbitas e narinas de um dos cranios, tirando-o da pilha como quem pega uma simples bola de boliche.

  — Aqui, veja por sigo mesmo. Pega. — Ezra jogou o cranio na dire??o de Micah, arremessando o resto mortal feito uma bola.

  Micah abriu os bra?os no reflexo puro — mas, antes mesmo de seus dedos chegarem perto do osso, algo correu pela sua coluna, como um arrepio invertido, como se algo tivesse invadido seu sistema nervoso.

  Victor, caminhando logo a frente, nem virou a cabe?a.

  Ele apenas recebeu um discreto cutuc?o de cotovelo de Ezra e, com um suspiro cansado, estalou a língua.

  O som ecoou duas vezes.

  Mas era como se o eco viesse antes do próprio som?

  E ent?o—

  Micah viu.

  O cranio, ainda no ar, abriu a mandíbula num estalo grotesco.

  Seu maxilar rachado se esticou como o de um predador faminto, dentes caindo de sua boca e ressurgindo como agulhas de marfim retorcido.

  Olhos ocos encheram-se de uma gosma negra, que se mexia como larvas.

  As suturas do cranio se abriram como fendas, pulsando com uma palidez doentia enquanto ele ganhava peso.

  Uma coluna crescia a partir do pesco?o com uma rapidez assustadora, seguido das costelas e a bacia.

  O cranio estava gerando um corpo pra si mesmo.

  E aquela coisa voou direto na cara dele, urrando com um som que era metade porco, metade crian?a engasgada:

  HRRRGHRRRGH—

  Micah soltou um grito primário, horrível, involuntário:

  — AAAAH N?O N?O N?O—!

  Ele se jogou no ch?o com tanta for?a que escorregou nos próprios pés, bateu a cabe?a em uma das paredes de ossos, tentou rastejar pra longe e acabou esbarrando em um fêmur que caiu e rolou, fazendo mais barulho.

  Tentou se defender com as m?os nuas, sacudindo os bra?os como quem tenta afastar uma abelha… gigante… com fome.

  O grito reverberou pelo corredor inteiro.

  Quando os ecos cessaram, ele percebeu:

  O cranio estava parado no ch?o.

  Inerte.

  Do jeitinho que Ezra lan?ou.

  Nenhuma gosma negra.

  Nenhuma mandíbula viva.

  Só um cranio, comum, olhando pra ele com o mesmo vazio que ele já estava acostumado a ver no espelho.

  Ezra segurou uma risadinha enquanto olhava pra Micah.

  Ent?o estendeu o bra?o numa pose teatral, como um apresentador de circo:

  — Tcharam.

  Victor continuou andando, indiferente, como se a cena fosse rotina.

  Talvez fosse.

  Micah, trêmulo, continuou paralisado no ch?o por três longos segundos antes de finalmente encontrar sua voz:

  — C-CARALHO, QUE PORRA FOI ESSA???

  — O que? — Perguntou Ezra, cutucando o nariz. — Você caindo? Uma performance magnífica, devo dizer.

  — N?o! O negócio! O cranio virou um bicho! Um— um— um—

  — Um cranio. — corrigiu Ezra. — Um excelente cranio, inclusive. Pare de desperdi?á-lo com drama.

  Victor finalmente olhou por cima do ombro, olhos semicerrados, express?o de alguém que gostaria de estar fazendo qualquer outra coisa.

  — Desculpa, mestre. — O guarda-costas murmurou. — O eco saiu mais forte do que pretendia.

  Ezra deu uma palmadinha amigável no bra?o dele.

  — N?o se desculpe, Victor. Foi ótimo. Ele quase urinou nas cal?as.

  — Eu– eu n?o mijei! — rebateu Micah, vermelho.

  — Ainda, meu caro. — sorriu Ezra.

  Victor deu meia-volta e pegou o cranio no ch?o, devolvendo-o para Micah com uma seriedade militar desconfortavelmente humilhante:

  — Segura direito desta vez — Ele instruiu, como se Micah fosse uma crian?a segurando um ovo.

  Micah pegou com as duas m?os, tremendo, como um gato molhado.

  Ezra virou-se para continuar guiando o grupo pelos túneis decorados com ossos.

  — Agora venha. Tenho muito trabalho a fazer.

  — E… o que exatamente eu fa?o com isso? — perguntou Micah, levantando o cranio como quem segura algo amaldi?oado.

  — Ah, nada. — respondeu Ezra, sem olhar para trás. — Eu só queria ver sua rea??o mesmo.

  Victor pigarreou, tentando disfar?ar um sorriso.

  Micah considerou por um instante jogar o cranio na cabe?a de Ezra.

  Mas com a lembran?a daquela vis?o aterrorizante, que ele ainda n?o conseguia explicar, temeu o que ele faria com tais poderes se realmente estivesse aborrecido. Ent?o apenas colocou o osso onde estava, se assegurando de que n?o passava apenas de um cadáver antes de seguir o grupo.

  — O que é esse lugar afinal? — Questionou Micah enquanto tentava ler inscri??es ilegíveis no teto arqueado, sem sucesso.

  — Uma se??o n?o aberta ao público das catacumbas da cidade. — Respondeu Ezra com desinteresse. — Um tempo atrás a passagem que conectava este lugar ao resto das catacumbas alagou. Assim que soube das notícias reaproveitei o espa?o intacto como laboratório particular. Essa é a raz?o principal de eu ter um imóvel nessa cidade agrícola ao invés da capital. Além dos pre?os absurdos de lá, claro.

  Assim que terminou, Ezra tirou um len?o do interior de seu gib?o, colocando o tecido sobre o nariz.

  — Prepare-se, estamos perto do esgoto da Ilha Central, o cheiro vai ficar bem desagradável.

  E como ele disse, o cheiro pungente de dejetos humanos dominou o espa?o, fazendo com que Micah enfiasse o rosto dentro da túnica. Ele pensava que já estava acostumado com o cheiro de merda, já que sempre passava pelo córrego na sua ida ao trabalho, mas, de alguma forma, isso conseguia ser pior até do que isso.

  N?o obstante do fedor, Victor e o outro guarda-costas — que continuava an?nimo por baixo de seu elmo — permaneciam em suas posturas militares perfeitas, o que fez Micah questionar se sequer possuíam olfato.

  Logo o grupo alcan?ou uma parte dos corredores que parecia mais pris?o do que ossuário, com celas escuras que ladeavam ambos os lados do túnel.

  O lado esquerdo abrigava diversos prisioneiros de índole estranha. Alguns deles apenas encaravam quem quer que passasse por suas celas. Outros batiam suas cabe?as contra a parede até manchar a pedra de vermelho. Pouquíssimos pareciam ter a sanidade intacta.

  Micah até viu um deles comendo o próprio lábio, uma cena que lhe deu arrepios.

  O direito possuía mais deles, só que presos em cadeiras de metal com tubos inseridos em seus bra?os, tendo seu sangue retirado e armazenado em grandes frascos de vidro para um propósito que Micah temia questionar.

  Ele pode apenas ficar horrorizado enquanto via exemplos de seu destino se continuasse sob a mercê de Ezra.

  — N?o tenha pena deles. — Declarou o alquimista, segurando o ombro de Micah com a m?o livre. — A maioria s?o criminosos ou caloteiros que abusaram da minha boa fé. Mas alguns... s?o que nem você.

  De repente pode se ouvir um estrondo vindo de uma cela à esquerda. Um homem acima do peso segurava as barras de ferro, mostrando anéis que amea?avam quebrar em seus dedos gordos, além de ter um manto sujo e rasgado, no entanto, prateado.

  — EZRA. EZRA! — Gritou o homem, desesperado. — Olha, me solta, por favor. Eu te pago em dobro, em triplo até! Só me dê alguns meses... Eu n?o tenho serventia nenhuma pra você aqui.

  Ezra olhou para ele por um momento, ent?o aproximou-se, sorrindo abertamente antes de humilha-lo em voz baixa:

  — Garland, meu caro Garland, fa?a me o favor de cessar essa sua birra. — O alquimista cutucou o peito dele. — Nós dois sabemos que tipo de homem você é. Um nobre simples, apreciador de apostas e dependente da m?e sorte. Mas, infelizmente, o destino de homens assim é sempre o mesmo... O dinheiro acaba. Procuram empréstimos, acreditando com todo seu ser que a sorte ainda sorri para eles — mesmo que ela já os tenho abandonado à muito tempo. Mas que dó...

  Ezra abaixou ainda mais a voz, brincando com o cabelo de Garland:

  — Eu observei seus passos, Garland. Eu vi você liquidando seus ativos. Eu vi você juntando o pouco dinheiro que tinha. Eu vi você arrumando as malas para se juntar à uma caravana. Você planejava fugir pra Vellancia, recome?ar com uma nova identidade. Mas o mundo n?o gira nesse sentido, você n?o pode simplesmente fugir dos problemas. Você foi pego em flagrante tentando me calotear... E isso me magoa profundamente, Garland. Eu pensei que f?ssemos amigos. Você ajudou a arrumar meus móveis quando vim pra cá, íamos na catedral juntos todo axedal, até nos encontrávamos na taverna de vez em quando... Mas você sabe como a Lei funciona, Garland, você estudou na capital, você é um homem inteligente. Essa é simplesmente a consequência de suas a??es, Indeniza??o por Servitude. E, como todo cidad?o, você tem de aprender à lidar com ela.

  Ezra terminou a conversa com um tapinha nas costas, deixando o homem lá, derrotado, com os olhos arregalados e caído de joelhos.

  — Você vai dormir aqui. — Afirmou Ezra enquanto o guarda-costas an?nimo pegava um molho de chaves preso em seu cinto, abrindo uma das celas. — Eu preciso que seu corpo espiritual se recupere antes de seguirmos. N?o há muito espa?o, ent?o se dê bem com seu coleguinha de quarto, certo?

  Micah n?o teve nem tempo para hesitar quando foi empurrado pra dentro, tendo a porta trancada atrás de si. A cela era pequena, dispondo apenas de uma beliche e um buraco no ch?o para necessidades.

  Micah ficou por alguns segundos parado, com o ouvido colado na escurid?o que se movia dentro da cela. O fedor era pior ainda ali: suor velho, ferrugem, umidade que nunca secava, e algo mais… algo que lembrava carne descascada.

  Ele engoliu seco.

  — ...Tem alguém aí?

  Silêncio.

  Mas n?o era um silêncio morto — era o tipo de silêncio que respira.

  Micah avan?ou um passo hesitante, e ent?o uma voz fina, rouca, surgida do beliche de cima respondeu:

  — Você demora pra perceber as coisas, né?

  Micah deu um pulo t?o grande que bateu a cabe?a numa das barras de ferro. Um riso fraco escorreu do beliche, meio cansado, meio debochado.

  — H-hei… eu te conhe?o?

  A figura desceu devagar. Primeiro uma perna fina, depois o tronco nu. A luz que entrava pelas barras revelou o rosto magro de um garoto pré-adolescente — mas o que mais chamava aten??o eram as m?os.

  Os dedos eram longos demais, duros demais, como se formados de quitina.

  Micah imediatamente reconheceu.

  Era o menino do celeiro.

  O mesmo que estava com o pé na cova e foi o receptáculo de sua frustra??o.

  — Você— você é… — Micah apontou, quase derrubando a própria cachola.

  O menino ergueu o queixo.

  — Do celeiro? Sim. — Ele inclinou a cabe?a. — Você berrou igual um porco na época também.

  Micah ficou sem saber se respondia ou n?o.

  O garoto soltou um suspiro quase cínico e se sentou no beliche inferior.

  — Pensava que tinha morrido lá fora. Quase fiquei decepcionado quando ouvi seus gritos no corredor… — ele olhou para as próprias m?os deformadas com um tédio estudado. — Mas pelo visto você é difícil de matar. Parabéns.

  Micah piscou, confuso e irritado.

  — Você podia ter… sei lá, se apresentado antes de me assustar, sabia?

  — Eu podia — O menino deu de ombros. — mas seria mentira.

  Micah franziu o cenho.

  — O quê?

  O garoto o encarou com seus olhos escuros, fixos, sem piscar.

  — Eu n?o sou bom com apresenta??es. Ou com gente. Eu tecnicamente nem sou a mesma pessoa que conheceu.

  Ele disse isso da maneira mais casual do mundo — como quem comenta sobre chuva.

  Micah olhou pra ele como se estivesse falando grego.

  Um sorriso torto surgiu no rosto do menino, meio irritado, meio surpreso com a lerdeza de Micah.

  — Exúvia. — Disse, finalmente. — é a minha Imagem. Nasci pra escapar de tudo. Casca velha nunca dura comigo, e sempre que troco de exúvia, me torno mais resistente. Mas... assim como perco minha antiga casca invisível no processo, sempre acabo deixando um pedacinho de mim para trás.

  Um dos dedos estalou, rachando mais um peda?o de pele que caiu no ch?o como um fragmento ressecado.

  Micah engoliu seco novamente.

  — Isso… dói?

  — Só quando eu fico parado tempo demais. — Ele respondeu. — E Ezra me deixa parado. Por isso eu vou fugir.

  Ele disse aquilo com tanta convic??o que parecia uma lei da natureza.

  Micah se aproximou devagar.

  — Fugir… pelo esgoto?

  O menino o olhou como se estivesse avaliando se Micah tinha cérebro.

  — Eu já estive lá. A parede da terceira cela à esquerda tem uma grade meio solta. Provavelmente deve alcan?ar a drenagem que leva direto pro rio. Só que eu n?o consigo abrir sozinho. — Ele ergueu as m?os, mostrando que apesar da aparência dura, elas tremiam levemente. — Essas merdas racham toda vez que eu for?o demais. Crescem de novo, mas… dói. Parece que minha Imagem n?o conseguiu se adaptar ao meu defeito de fábrica, né? Haha...

  Micah respirou fundo, lembrando-se da vis?o terrível no Núcleo, do Cordeiro, dos olhos, do peso insuportável de ser visto.

  Ent?o ele finalmente percebeu o qu?o bem o menino estava. N?o usava mais as bandagens e nem sequer cicatriz tinha.

  — Como você se recuperou t?o rápido?

  — Nova casca, ué. Cura tudo. Aliás, obrigado por me deixar isolado aquele dia. Teria sido perigoso demais no meio daqueles psicopatas.

  Micah hesitou

  — E por que você quer que eu te ajude?

  O menino inclinou a cabe?a e deu um sorriso torto, mas afiado:

  — Porque tu tem cara de quem tá desesperado pra n?o morrer aqui — Disse, direto. — E gente desesperada se mexe.

  Micah n?o contestou.

  O menino levantou, analisando Micah como um crustáceo que procura uma saída no casco de um navio.

  — Ent?o, Micah. — disse ele, cruzando os dedos deformados atrás da cabe?a e apoiando a nuca deles — Você quer continuar sendo o brinquedo do alquimista? Ou quer abrir aquela parede comigo quando a ronda trocar de turno?

  Micah n?o respondeu de imediato.

  Mas seu silêncio já era resposta.

  — Como devo te chamar...?

  O sorriso do menino se alargou.

  — Sou Ivan M?ngke, mas pode me chamar de Lagostim.

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